Por Prof. Dr. Reginaldo Pereira de Moraes.

Introdução

 

Quando se começa a estudar o livro aos Hebreus, logo se ouve que para melhor entende-lo, deve-se entender o sistema cúltico judaico, detalhado no livro de Levíticos. Isto é fato, mas além dos detalhes do ritual e as regras cerimoniais de purificação, percebe-se que o autor da homilia epistolar aos Hebreus era um vasto conhecedor das Escrituras de sua época, o que hoje tem se chamado de Antigo Testamento. Além de um vasto uso ao longo de todo o livro de Hebreus de muitas citações desta porção da Bíblia, em seu quarto capítulo não seria diferente, já que trata de um dos temas centrais de seu livro. Com poucas palavras, pode-se dizer que o hagiógrafo tinha em mente o episódio de contenda, no qual o povo se rebelou contra Deus, dando ouvido aos dez espias, conforme narrado em Números 13 e 14. Com esta cena em mente, parte para sua explanação apoiado no texto do Salmo 95, onde declara que o povo perdeu muito mais do que a entrada na terra prometida: o povo havia perdido próprio descanso do SENHOR. Por conta disso, o autor apela ainda para o uso de Gênesis 2.2, aos moldes da interpretação midráshica, por ser o único texto que menciona que o próprio Deus havia descansado.

Como a temática principal de Hebreus 4 é sobre o verdadeiro descanso que Deus tem reservado para o seu povo e boa parte da teologia acerca do que Yavé planeja para a humanidade sobre este tema vem, no mínimo, de quatro livros do Pentateuco: o descanso no sétimo dia da criação (Gn 2.1-3), os dez mandamentos (Êx 20 e Dt 5), e a rebelião dos espias (Nm 13 e 14), gastou-se energia tentando compreender qual seria a relação entre o Pentateuco e o autor aos Hebreus. Nesta pesquisa percebeu-se que o livro de Gênesis ganha um destaque bem especial, principalmente, a partir da figura de José. Que pode ser visto como exemplo de alguém que descansou nos dois sonhos que recebeu de seu Deus e foi fiel até o fim. Todavia, antes de se entrar no livro de Gênesis e sua relação com o livro de hebreus, faz-se necessário fazer uma análise panorâmica sobre o Pentateuco em si.

 

1. Vislumbrando a Estrutura do Pentateuco para entender o uso feito em Hebreus

 

Obviamente, antes de se adentrar no mundo da interpretação de Gênesis é de fundamental importância um breve vislumbre sobre o conjunto dos primeiros livros, chamados de Pentateuco, Toráh ou os Livros da Lei.4 Isto se faz necessário, a fim de se buscar uma luz maior sobre a estrutura destes livros, em especial, com relação à caminhada do povo de Deus rumo a uma terra de descanso.

O conjunto todo tem grande chance de ter como tema central a ideia de “relacionamento”. Tanto entre Deus e a humanidade, quanto entre as próprias pessoas e seu próximo e, ainda, entre o povo de Deus e o mundo onde vivem. Além disso, parece bas-tante provável que tanto Gênesis, como Números, possuem temas bem próximos como os abordados em Hebreus. Por exemplo, a) a imagem de trânsito ou peregrinação, b) a ideia da voz divina sempre presente, c) a descrição de uma vida mais tranquila quando vivida sob Sua Palavra, e d) o contraste entre uma vida sob os atos de fé e as inconstâncias de uma vida de incredulidade.

Além disso, em uma simples leitura pode-se perceber a grande variedade de estilos e formas ao longo da Bíblia. Todavia, reconhecer cada uma delas, diferenciando-as e, principalmente, entendendo o porquê de terem sido utilizadas pelo autor sagrado, nem sempre é tarefa tão simples. Todavia, é deveras fascinante poder perceber alguns destes detalhes “perdidos” em meio a uma estrutura ou figura de linguagem. Por exemplo, quando observa-se a estrutura do Pentateuco, como um todo, vislumbra-se alguns detalhes, no mínimo, curiosos. Segundo Zenger, ele teria sido escrito ou formatado numa estrutura poética, em forma de quiasmo espelhado (o que neste artigo optou-se em chamar de paralelismo ou padrão menorático), no qual Gênesis teria correspondência com o livro de Deuteronômio e Êxodo com o de Números; enquanto que o livro Levíticos, sendo o livro central passa a ser o clímax de todo o conjunto:

 

Quadro 01 – Estrutura de Paralelismo menorático para o Pentateuco Fonte: ZENGER, 2003, p. 48ss, In: MORAES, 2016, p. 58;

 

Nem todos concordam com esta estrutura. Para alguns, embora haja um estreito alinhamento entre cada livro do Pentateuco, os mesmos não estariam assim tão bem delineados. Por exemplo, enquanto Êxodo, Levíticos e Números formariam uma unidade bem coesa, de pertença mútua, Gênesis e Deuteronômio entrariam na moldura final apenas como prólogo e epílogo, respectivamente. Curiosamente, este mesmo princípio é encontrado no trecho de Gênesis 1.3, onde o texto de Gênesis 1.2 31 estaria num padrão de paralelismo estrutural do tipo A-B-C-A’-B’-C’ e os versos 1.1 e 2.1-3 seriam a moldura que introduziria e finalizaria o primeiro cântico da criação.

Voltando ao Pentateuco, acredita-se que além de mera in-trodução ou conclusão, ambos os livros (Gn e Dt) também pos-sam ter sido editados seguindo o padrão menorático mais claro encontrados nos outros três livros centrais (Êx, Lv e Nm). Assim, além daquela distribuição defendida por Zenger, pode-se observar que tanto o livro de Gênesis, quanto o de Deuteronômio também possuem uma subdivisão quádrupla, o que aumenta-riam a correlação entre ambos, respectivamente, como braços A e A’ do paralelismo menorático do Pentateuco.

 

Quadro 02 – Compilação comparativa entre Gênesis e Deuteronômio. Fonte: BRIEND, 1985; ZENGER, 2003 e GUSSO, 2011.10;

 

Esta análise se torna importante, porque, é provável que este uso do padrão menorático tenha influenciado o autor de Hebreus a usar deste recurso presente na poesia judaica para apresentar sua homilia epistolar. Além disso, também foi importante perceber tal estrutura menorática porque diferentemente do trato tradicional acerca da poesia no AT, que defende os paralelismos incluindo os padrões menoráticos apenas para poucos versos,11 aqui se teria um conjunto de cinco livros arrolados em torno deste aspecto poético da poesia hebraica. Ou seja, os cinco primeiros livros teriam sido arrolados entre si, em torno da temática do relacionamento de Deus para com Seu povo e seus desdobramentos.

 

2. Entendendo o Livro de Gênesis

 

Aqui, será analisado, rapidamente, sobre a estrutura do livro de Gênesis, com destaque para a estrutura dos relatos patriarcais e alguns detalhes sobre datação. Logo de imediato, tem sido comum observar uma divisão bem simples para o primeiro livro da Bíblia, sob a perspectiva de apenas duas grandes partes. A primeira, contemplando Gênesis 1 a 11, sob a temática “a história primeva” (contendo a criação do mundo e o surgimento das demais nações) e, no segundo bloco a saga dos patriarcas,14 abrangendo os capítulos de Gênesis 12 a 50.

Assim como o Pentateuco, ao que parece, Gênesis não é um produto direto da pena de um único autor. Todavia, isso, por si só, não serve como base sólida para se ignorar a inexistência histórica de suas narrativas, como fazem alguns teóricos. Pois, muito provavelmente, muitas dessas histórias foram criadas e transmitidas oralmente através dos séculos e de forma isolada umas das outras. Só como exemplo, pode-se citar: a) Smith, que menciona que a intenção maior do autor final de Gênesis, ao citar a criação era indicar que Deus é o criador de todas as coisas e não meramente uma explicação de como tudo aconteceu;  b) Gusso, que lembra o leitor sobre a existência de dois relatos com peculiaridades distintas sobre a criação humana, indicando não contradição, mas que autor devia ter, no mínimo duas fontes distintas, porém complementares, e, por fim, c) López e sua teoria tríplice sobre o surgimento das narrativas de Jacó e seus descendentes.

Mesmo sendo um livro, que muito provavelmente teve a participação de vários autores, mesmo assim é possível perceber aspectos relacionados a uma estrutura geral pré-concebida. Por exemplo, os onze primeiros capítulos de Gênesis teriam sido dispostos numa certa correlação entre suas partes:

 

Quadro 03 – Estrutura de Gn 1 a 11, em padrão de paralelismo menorático. Fonte: SCHWANTES, 2002, p. 51.

 

Sobre o possível propósito do bloco referente aos patriarcas, o autor de Gênesis (ou redator final) tinha em mente uma contribuição muito maior sobre a unificação de Israel do que a preocupação com qualquer reconstrução dos fatos. Não entendendo este dinamismo e interesse é que, talvez, tenham surgido alguns autores, que vislumbram a teoria de que Jacó teria sido o representante de um clã qualquer e, ao se fundir com outro, chamado de Israel, mais pra frente se fundiram com outro de descendência a partir de um tal de Isaque. Assim, o Abraão que seria pai apenas de Isaque, passa a ser reconhecido como o avô desta nova coligação das tradições patriarcais. Ou ainda outra teoria de que, inicialmente, eram quatro clãs distintos: o de Jacó, com seu El Betel; o de Israel, com seu El Berit, em Siquém; o de Abraão, com seu El Shaday, em Mambré; e o de Isaque, com seu El Olam, em Berseba.

Aqui, porém, segue-se a ideia tradicional de que Abraão, Isaque e Jacó (mais tarde denominado Israel) teriam sido parentes, de fato. Todavia, não se tem a intenção de entrar em maiores detalhes. Por ora, analisa-se a história canônica, a fim de vislumbrar o que os israelitas do deserto e, mais tarde, assentados em Canaã entendiam como descanso divino. Há autores que seguem uma linha similar, quando convida a respeitar o caráter do texto, mesmo que o mesmo não siga os passos historiográficos atuais e possam se preocupar muito mais com a transmissão das sagas de seus antepassados em vez de uma reconstrução histórica aos moldes científico-acadêmico dos dias de hoje.

Outros autores, embora procurem explicar os surgimentos das várias sagas, de forma alheia à tradicional, chegam  à conclusão de que tais histórias, como descritas nas páginas de Gênesis, não podem ser descartadas como totalmente não históricas. Além disso, cada um dos três blocos literários Gênesis 12 a 25, Gênesis 25.19-36 e Gênesis 37 a 50, que tratam sobre os patriarcas Abraão, Jacó e José, respectivamente, podem ser considerados como relatos com certa independência. Os principais defensores desta hipótese são, respectivamente, Schwantes,  Jarschel e Reimer. Há ainda quem considere “os patriarcas como personagens históricos”, embora os veja como pertencentes a diferentes grupos.

Uma observação muito significativa e pertinente, a partir desta dupla divisão é perceber que os 38 capítulos destinados aos patriarcas, possui uma subdivisão bem clara: Gênesis 12 a 36 narra a história de Abraão, Isaque e Jacó (os três patriarcas do povo) enquanto que Gênesis 37 a 50 cuida de descrever a saga de José, por meio da narrativa de uma novela. O que tem incomodado este autor há alguns anos é: Por que José teria uma atenção toda especial, enquanto os três patriarcas tem suas narrativas condensadas e intercaladas entre si?

Esta inquietação persiste mesmo na divisão quádrupla, considerada anteriormente, no quadro XXX, na qual Gênesis 1 a 11 descreve o ciclo das origens, Gênesis 12 a 36 o ciclo patriarcal, Gênesis 37 a 48 a história de José e Gênesis 49 a 50 o desfecho de Jacó. Isto, porque, em geral, quando os patriarcas são menciona-dos, não se imagina inserir José entre eles. Eis algumas tentativas de justificativa ou, pelo menos, ensaios de explicação: para alguns, a saga de José seria uma narrativa independente procurando descrever o surgimento do povo hebreu, em especial, a partir de sua saída do Egito e, nesta versão, os outros patriarcas não ganharam destaque.

Outra possibilidade, diz que a história de José serviria de apologia aos abusos cometidos pela monarquia israelita, dando-lhes um conceito de aceitação divina.29 Todavia, além de não passarem de teorias a serem provadas, não conseguem trazer uma resposta definitiva sobre a questão. Mesmo porque, uma delas ignorou o fato de que embora José tenha “comprado” todo o Egito, grande parte de sua saga narra-o em sofrimento sabendo aguardar o agir divino e, acima de tudo, mantendo-se fiel aos preceitos de sua fé. Certamente, se fosse uma história escrita apenas com o intuito de justificar os desmandos dos reis de Israel, não teria lógica terem registrado uma espiritualidade tão grande entre José e seu Deus.

Esta dificuldade persiste, mesmo quando se considera a outra possível estrutura de Gênesis, a partir dos dez relatos iniciados com a palavra Toledot. Todavia, embora haja discussão no sentido de entenderem melhor o relacionamento destas 10 histórias com a divisão quádrupla de Gênesis, uma coisa é muito certa: nas divisões tradicionais, seja ela defensora de dois grandes blocos, em quatro ou em dez, em todas elas, a saga de José pertence ao grupo dos patriarcas. Por isto, e ao lembrar da estrutura do Pentateuco, que parece direcionar para relacionamento de Javé com seu povo, acredita-se que José tenha um paralelo maior e muito mais significativo com os três patriarcas. Em especial, sob a temática do relacionamento de Javé com seu povo.

 

3. Observando a Estrutura da Narrativa Patriarcal (Gn 12 a 50)

 

Pelo fato do período relacionado à história dos patriarcas ser um tanto longo e com uma literatura relativamente extensa (38 capítulos), optou-se em vislumbrá-la a partir de pequenas subdivisões.  Diante desse breve panorama, acredita-se que a história de José não esteja ali sem uma intencionalidade maior, pretendida pelo autor ou editor final do livro de Gênesis. Assim, defende-se a ideia de que José seria um ótimo exemplo (talvez até mesmo um tipo) do verdadeiro servo de Deus. Ou seja, enquanto seus pais tiveram claras demonstrações da presença e da bênção de Javé e não conseguiram manter-se fieis e constantes em suas jornadas, José foi diferente. Embora só tivesse tido dois sonhos como revelação divina (cf. Gn 37,5e9), mostrou-se totalmente fiel e dependente o tempo todo.

Em outras palavras, contrariando a tradição familiar no uso de artimanhas e manipulações para conquistar ou garantir a bênção divina, José não fez nada que pudesse denegrir sua vida de relacionamento com seu Deus. Curiosamente, a única coisa que ele fez, no sentido de procurar uma alternativa para mudar seu futuro foi pedir ao copeiro que se lembrasse dele, quando retornasse à sua posição de origem.35 Todavia, por ironia do destino, embora seria um pedido totalmente válido e sem qualquer aspecto de articulação mundana ou meramente política, o copeiro esqueceu-se completamente de José e só veio a se lembrar dele, dois anos mais tarde, quando o Faraó precisou de ajuda.

Outro detalhe que pode corroborar com esta linha de raciocínio é o fato de Brueggemann e Fishbane defenderem a ideia de que a saga de Jacó (Gn 25.19 a 35.29) ter sido disposta em um padrão menorático, no qual o nascimento de José estaria no centro. Convém lembrar que, geralmente, o assunto central neste tipo de poesia é a parte mais importante dentre os assuntos abordados.

Quadro 05 – Estrutura de Gn 25.19 a 35.22, em forma de Quiasmo. Fonte: FISHBANE, 1998, p. 42. (Tradução nossa).

 

O mais interessante, é que, ao se observar os acontecidos em cada um de seus braços, percebe-se algumas ideias muito similares às desenvolvidas em Hebreus e na própria história de José. Em outras palavras, na poesia sobre a história de Jacó é possível ver a ideia de trânsito (Jacó indo e voltando de Padã-Harã), a nítida presença da Voz divina procurando nortear a trajetória de seu servo, as constantes artimanhas, inquietações, conflitos e medo (como contraponto ao descanso apregoado por Hebreus e vivenciado por José) e a grande declaração de que a bênção divina se faz presente apesar do caos e da infalibilidade de seus servos. Assim, a comparação entre Jacó e José volta a ficar mais uma vez evidente. Curiosamente, o seu nascimento é narrado exatamente no meio do padrão poético, indicando o clímax de todo o ciclo. Certamente, mais um indício de que sua novela tem uma forte ligação com a história de seu pai. Não somente isso, mas também pode-se encontrar esta mesma correlação existente entre a saga de Jacó e o livro de Hebreus, em todas as narrativas dos patriarcas, conforme já tinha sido apontado por Alt.

Todavia, para continuar a caminhada, neste sentido, será preciso averiguar um pouco mais sobre os debates relacionados às narrativas do patriarca Jacó e a novela de José. Tanto Rast quanto Noth defendem a ideia de que a tribo de Efraim teve certa influência e importância na elaboração final do ciclo jacobita. Porém, segundo de Pury, precisa ser levado em consideração que as histórias de Gênesis relacionadas a Jacó não o são considerando-o como “o Israel real, mas o Israel das tribos”. Ou seja, são histórias muito antigas, preservadas por sua tradição oral e que, não se pode simplesmente entrega-las “de mão beija-da aos detentores do poder”.

Além disso, a partir de uma rápida olhada no texto bíblico, soaria um tanto estranho encarar a saga jacobita sob o viés efraimita. Primeiro, porque não seria fácil a aceitação da superioridade da tribo de José e, por outro lado, ao encará-la como uma editoração final feita pela tribo de Judá, seria necessário explicar a razão do destaque a um personagem que se mantém firme na dependência a Yahweh. Principalmente porque José é declaradamente abençoado e praticamente evidenciado quase como um “ideal”. Modelo este que faria mais sentido ter sido seguido por Davi e seus sucessores, porque, diferentemente do que ocorria nas sangrentas sucessões ao trono, feita pelas tribos do norte, a dinastia de Davi, bem ou mal, se manteve fiel “a Jerusalém” e de forma alguma, ficaram correndo atrás da “bênção”.

Ou ainda, como parecem mais provável, os delineamentos gerais da composição de ambas as histórias poderiam ser encarados como a compilação de um único povo (antes da divisão dos reinos). Se assim o fora, em lugar de a história de José e sua integridade serem vista como algum tipo de afronta, passaria a ser encarada muito mais como um incentivo de que Javé é o responsável pela bênção. É Ele quem a dá, sem qualquer necessidade de trapaças para adquiri-la. Estando, inclusive, em sintonia, com a declaração de Gênesis 2.2 de que Deus já dispunha de um descanso para aquele que ouvisse Sua voz.

Certamente, para a proposição desta ideia, seria necessário considerar mais a historicidade de tais narrativas. Embora alguns teólogos não creiam nisso, outros concordam com a plausibilidade histórica de Jacó. Ou, então, que as unidades menores, utilizadas na composição do Pentateuco, surgiram por meio de memórias familiares, e ainda Rast, com sua explicação de como se desenvolveram as narrativas orais e como chegaram a serem compiladas como obra escrita.48 Por fim, opta-se em seguir o princípio de dar maior importância na mensagem do Pentateuco em sua formulação final,49 haja vista ter sido o texto que o autor de Hebreus tinha em mãos.

 

4. Analisando a Relação Teológica entre Gênesis e Hebreus

 

A partir dos apontamentos levantados, até aqui, crê-se que o livro de Gênesis, além de estar sob a égide do relacionamento Senhor-humanos, portanto em total sintonia com o Pentateuco, tem boas chances de ter sido utilizado como protótipo estrutural de segmento veterotestamentário para o livro de Hebreus. Curiosamente, embora alguns tenham procurado definir o tema central do AT a partir dos três primeiros capítulos de Gênesis sob o conceito da “criação”, ao ler os primeiros capítulos da Bíblia, percebe-se que o autor de Gênesis estava interessa-do em declarar não apenas a criação do universo, mas dar uma atenção especial ao lugar de Adão e Eva como representantes da humanidade: mencionando a sua origem, a forma de seu trabalho, sua relação com o meio ambiente e seu dia de descanso. Além disso, acima de tudo, revelar o caráter do próprio Deus, revelando-O como um ser íntimo e cuidadoso, explicando o início da inquietação moral da humanidade, bem como mostrando sua tendência a ter um coração arredio à voz divina.52 Em suma, o trecho de Gênesis 1-3 trata muito mais do relacionamento entre O SENHOR, Sua criação e a própria humanidade do que sobre o evento criacional em si.

É bem provável que, tanto a estrutura menorática da montagem final do Pentateuco e em partes do Gênesis, quanto esta temática geral, tenham influenciado o hagiógrafo neotestamentário a expor suas ideias seguindo esse mesmo padrão. Além disso, alguns assuntos presentes nestes livros do AT, também voltam à tona no escrito aos Hebreus. Noutras palavras, em ambos os livros é possível encontrar:

a) um Deus que cria algo novo. Enquanto em Gênesis, apresenta Elohym/Senhor trazendo o mundo e suas nações à existência, para se relacionar com eles, em Hebreus, há a declaração do Filho criando a possibilidade da regeneração;

b) um Deus que se relaciona e constantemente faz com que Sua voz esteja à disposição da humanidade. Enquanto em Gênesis pode-se perceber as várias aparições Teofânicas, como em Gênesis 3.8; 15.1-21; 17.1-21; 18.33; 26.2-5,24; 28.12-16; 32.24-32,55 em Hebreus 1.2 há a declaração de que Deus havia enviado Sua revelação máxima, por meio do Filho e em Hebreus 3.7,15, mostra que Seu Espírito ainda se dispõe a falar com Seu povo;

c) um Deus que procura estar com a humanidade, a despeito do comportamento inconstante e oscilante desta. Em Gênesis 3 é descrito a figura do primeiro casal que, mesmo diante do paraíso, opta por esconder-se de Seu Deus. Ou, ainda, nos vários exemplos deixados ao longo do livro, em Gênesis. Não apenas os mais chocantes, como Caim (Gn 4.6-10), a sociedade antediluviana (Gn 6.1), a coligação de Ninrode (Gn 10.8; Gn11.1-9), ou a tragédia de Sodoma e Gomorra (Gn 18.20; Gn 19.17,26), como também na própria trajetória dos patriarcas, que mesmo sendo considerados como exemplos de fé, uma vez ou outra deixavam sua marca de incredulidade e/ou desobediência (cf. Gn 12.4; Gn 16.1-4; Gn 25.21-23 e Gn 27.1-4). Em contrapartida, o autor de Hebreus acaba sendo bem enfático em expor a diferença entre os infiéis e os fiéis no povo de Deus, em sua época;

d) a importância de se dar ouvidos à voz divina. Além dos vários exemplos de que Deus se dispôs a estar com Seu povo e os exemplos da inconstância deste em seu relacionamento com Deus, também é nitidamente catastrófico, o resultado da atitude de se ignorar a Sua voz. Enquanto o autor de Gênesis mostra que só há o que perder, quando não se dá ouvidos às instruções divinas, como expulsão do paraíso, tragédias familiares, corrupção generalizada, destruição diluviana, intervenção divina, separação e desterro. Para o autor de Hebreus, a tragédia é elevada a uma dimensão ainda maior, a espiritual, pois segundo ele, além da Voz divina auxiliar a continuar firmes (Hb 2.1), não há nada que possa ajuda-lo, caso venha a ignorá-la (Hb 2.3);

e) um Deus que se relaciona com seu servo Abraão e sua descendência. Em Gênesis é descrito o Criador prometendo Sua bênção a Abraão (Gn 18.17-19) e, confirmando a seus descendentes Isaque (Gn 26.2-6) e Jacó (Gn 28.13-15). Já nosso hagiógrafo neotestamentário deixa claro que o Filho participou de nossa humanidade com o objetivo de prestar auxílio à descendência abraâmica (cf. Hb 3. 14-16);

f) um Deus que provê descanso, ao declarar, em Gênesis 2.2, que Ele próprio descansou. Muitos têm entendido que Deus o o fez não porque Ele precisasse, mas como um verdadeiro exemplo a ser seguido. E também pela afirmação em Hebreus 4.9 de que Deus ainda tem um descanso especial reservado às pessoas que crerem nEle;

g) a não apropriação de um paraíso construído e deixado à disposição humana. Assim como Gênesis 3 demonstra a queda da humanidade e sua expulsão do paraíso, Hebreus é claro em evidenciar que a geração do deserto perdeu a chance de entrar na Terra prometida e, pior, a cena podia voltar a acontecer com os seus ouvintes, pois alguns estavam tendendo a regressar às práticas judaicas, deixando de lado a tão esperada salvação (Hb 4.1);

h) a ideia de caminhada ou peregrinação. Curiosamente, os patriarcas, com certa frequência, estiveram em Canaã, porém, sempre o foram como nômades ou transeuntes. Eles tinham a promessa de que aquela terra seria deles, mas só foram tomar posse da mesma, alguns séculos mais tarde, com a saída do Egito. Este mesmo pensamento volta a ser trabalhado pelo autor de Hebreus. Seu posicionamento principal é de que seus ouvintes, em especial os crentes, são como peregrinos rumo ao verdadeiro lar. Sua passagem por esta terra pode até se dar por meio de sofrimento e aflição, eles até podem andar “errantes pelos desertos e montes, e pelas covas e cavernas da terra”, mas o mundo que os levam a esta condição é que não era digno da presença destes fiéis e, acima de tudo, Deus tem reservado algo muito maior e melhor para os Seus (Hb 11.38-40);

i) a importância de uma vida pautada por fé e obediência. Embora a humanidade esteja rodeada de dificuldades, próprias desta era, há pessoas que por meio de sua fé em Deus foram obedientes à Suas instruções e venceram. Isto fica claro tanto em Gênesis quanto em Hebreus;

j) o apego em uma esperança que não se contenta a deixar atrelados apenas no aqui e agora, mas que vai além de um mero horizonte histórico e físico. Conforme Schwantes, “uma certa especificidade bíblica reside em sua insistência no amanhã. A Bíblia promove o futuro. É um livro para a militância do porvir.”, esta percepção também pode ser restringida nestes dois livros em estudo (Gn e Hb); e por fim,

k) nada pode frustrar os planos divinos. É interessante como os autores bíblicos não escondem as falhas das pessoas, mesmo que elas sejam os personagens principais em certas narrativas. Desta feita, pode-se perceber várias descrições de percalços que parecem atrapalhar o rumo dos planos ou das promessas do SENHOR. Todavia, nenhuma delas deixaram de ser cumpridas. Isto volta a ser destacado pelo autor de Hebreus, quando ele enfatiza que embora os seus pais não entraram no descanso, isso não ser-viu de empecilho para que a promessa de Deus fosse anulada. O descanso ainda continua à disposição das pessoas que tiverem fé e obedecerem até o fim às Palavras divinas.

 

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