Por Matheus Ferreira Maia.

Um olhar à procura de líderes no texto bíblico vai revelar muitos nomes, mas de nenhum outro líder é possível ter tantos detalhes da vida e obra, e extrair tantas lições, como de Paulo e sua relação com os seus liderados, principalmente Timóteo. O apóstolo é, sem dúvida, o escritor mais importante da era cristã. Segundo Bruce, de todos os escritores do Novo Testamento, Paulo é aquele que grava de maneira inconfundível sua personalidade em seus escritos e por isso está entre os grandes escritores de carta da literatura mundial.

A relação de Paulo com Timóteo já impressiona pelo fato de o apóstolo ter direcionado duas cartas, consideradas como pastorais, ao seu liderado, mas torna ainda mais excêntrica pela intimidade dos dois. Segundo o texto bíblico, essa intimidade vem desde a juventude de Timóteo, quando Paulo e Barnabé realizaram a primeira viagem missionária na província da Galácia, por volta do ano 47/48 d.C. O jovem se converteu por influência de Paulo e passou a assisti-lo em suas viagens. Uma amizade de mais ou menos 22 anos.

Paulo chama Timóteo de filho (1Tm 1.2, 1.18; 2Tm 1.2), pois se considera pai na fé do mesmo; também o chama de cooperador (Rm 16.21), pois talvez não exista alguém que esteja mais presente na vida dele, enquanto missionário de Cristo, do que Timóteo. Ele era considerado mensageiro do apóstolo (1Ts 3.6; 1Co 4.17; 16.10,11 e Fl 2.19), pois levava as cartas às igrejas; e também foi coautor junto com ele das cartas de Colossenses, Filemon, 1 e 2 Tessalonicenses, Coríntios (Cl 1.1; Fm 1.1; 1Ts 1.1 e 2Ts 1.1; 2Co 1.1) e Bispo da Igreja de Éfeso (1Ts 3.2). Não fosse essa relação tão próxima entre os dois, não haveria o desenvolvimento de tanta fé na vida de Timóteo e na vida de Paulo, pois este também era fortalecido pela amizade. Não fosse também essa relação, essas duas cartas não teriam surgido e, por que não dizer, as outras que Timóteo auxiliou Paulo a escrever.

Nos dias atuais, percebe-se uma necessidade de a igreja formar líderes que mostrem tanto o desempenho no manejo da Palavra, como a piedade pelos seus semelhantes. Líderes que não sejam apenas sensíveis ao mover do Espírito com relação aos dons espirituais, ou com uma formação teológica de ponta, mas que sejam também sensíveis ao clamor de vidas que precisam ser cuidadas, e que desejem, ardentemente, desenvolver o fruto do Espírito. Líderes que não invistam todo o tempo disponível na busca para atrair multidões, por meio de aulas, pregações em redes sociais e na televisão, mas que estejam dipostos a dedicar o seu tempo, intencionalmente, para discipular pessoas e formar outros líderes, para que estes também façam discípulos. Líderes que não apenas amem o amor de Deus, mas amem a Deus a ponto de dar a sua vida pelos outros, conforme diz 1 João 3.16.

Segundo Sills, muitos seminários, faculdades de teologia e instituições de treinamento pastoral estão graduando pessoas com grandes mentes, mas corações pequenos. Pela falta de um preparo integral intencional, essas pessoas entram nas igrejas com padrões carnais de liderança, de política e de intimidação, e acabam tendo práticas ministeriais ruins. Ele acrescenta que é preciso concentrar no ser humano como um todo, treinando homens e mulheres para terem a mente para Deus, o coração para a verdade e mãos hábeis para a tarefa.

O foco desse capítulo está na liderança relacional de Paulo, que apresentou Jesus a Timóteo e o levou consigo para ser aprendiz no trabalho missionário. Ele integrou Timóteo às verdades cristãs, comissionou seu aprendiz a levar cartas e fortalecer os irmãos das igrejas implantadas. Consagrou o mesmo ao pastorado e supervisionou o trabalho do Bispo de Éfeso com zelo e amor. Sem dúvidas, Paulo foi um líder que marcou a vida de Timóteo, porque a essência da sua liderança estava no relacionamento mantido com seu filho na fé. Isso foi fundamental para a ação discipuladora do apóstolo, consolidando na vida cristã e preparando Timóteo para o chamado pastoral. Sendo assim, os pontos que seguem abordarão um pouco dessa forma de liderança.

 

Compreensão de liderança relacional

 

Para tratar da liderança relacional de Paulo é preciso, primeiro, explicar esse conceito. Para tanto, faz se necessário destrinchar a expressão e explicar as palavras de forma separada, para só depois relacionar as duas. O pressuposto para esse texto é a análise da liderança cristã e não da liderança em geral. A liderança cristã é aquela baseada no exemplo, nas ações e nas palavras de Jesus Cristo. Ele é o referencial de liderança para todo cristão, e é também o exemplo de líder da igreja. Jesus é o líder servo, que se entregou totalmente pela humanidade e que encabeçou o treinamento mais efetivo do Seu reino a partir de 12 discípulos escolhidos entre mais ou menos 120 pessoas que andavam com ele no início do ministério. Enquanto ministrava às multidões, Jesus tinha o foco de fazer discípulos que pudessem aprender a reproduzir Sua vida e missão.

Existem muitas definições para o termo liderança cristã, mas a expressão mais usual que se encontra para a liderança de Jesus é de um líder servo. Esse termo nasceu com a publicação do livro “O Servo como Líder” (The Servant as Leader), de Robert K. Greenleaf, em 1970. De acordo com Keith, enquanto a ideia de liderança servidora retrocede a pelo menos dois mil anos, o movimento moderno de liderança servidora é de que o líder servo é primeiro um servo, ou seja, tudo começa com o desejo de servir. O coração de servo é a característica fundamental do líder, não é sobre ser escravo, é sobre o desejo de ajudar outras pessoas. É sobre identificar e encontrar as necessidades dos colegas, clientes e comunidades. Campanhã define o líder servo como “aquele que está disposto a fazer o que Jesus fez, dando a própria vida para cumprir a missão”.

A filosofia de liderança servidora traz inúmeras contribuições já que, segundo Neves, para muito pastores escolherem um modelo de liderança para adotar no seu dia a dia é uma dificuldade, além do perigo de adotarem visões seculares diante de muitas literaturas sobre o assunto. Fora isso, há o próprio Jesus afirmando que um dos alvos da Sua missão era servir e não ser servido (Mc 10.45)13, contudo, essa era apenas uma das marcas da liderança de Jesus, de modo que Sua liderança não poderia ser servidora se Sua essência não fosse o amor e Sua metodologia não fosse vivencial e relacional.

Bruce afirma, no seu ensaio “Treinamento dos Doze”, que os apóstolos chegaram ao relacionamento íntimo com Jesus por etapas de comunhão. A primeira etapa era a fé em Jesus como sendo o Cristo, na segunda, a comunhão com Cristo passou a ser ininterrupta, numa relação em tempo integral. No estágio final e mais elevado, os discípulos foram escolhidos pelo seu mestre dentro da multidão e se tornaram um grupo seleto a ser treinado para grande obra do apostolado. A centralidade de seguir Jesus por meio de um relacionamento próximo foi fundamental para o desenvolvimento espiritual dos doze apóstolos

Quanto ao termo relacional, recorre-se ao dicionário que traz a seguinte definição: “que estabelece uma relação entre duas ou mais coisas ou pessoas. Característica da palavra que estabelece relações sintáticas com outras palavras ou entre orações; conectivo.”  Etimologicamente, a palavra relacional tem sua origem “Do latim relatione ‘ação de dar em retorno’ + al”.

Relacional vem de relação entre duas coisas ou pessoas, manter uma relação, ter ou viver um relacionamento. No caso de Paulo e Timóteo, era um relacionamento baseado no discipulado cristão. Portanto, uma liderança relacional trata da influência de alguém na vida de outro a partir do relacionamento que é mantido. Cavalcanti afirma que o tom afetivo e toda questão emocional presente nas epístolas ajudam a comprovar a caminhada relacional de Paulo com Timóteo e com outros membros de sua equipe missionária.

Como líder relacional, alguém se dispõe a andar junto com um liderado e, a partir dos seus passos, do que fala e transmite com a sua vida, seu aprendiz se desenvolve. E não apenas o aprendiz cresce, mas o seu líder, pois há uma troca de experiências e daquilo que o Espírito Santo comunica na vida dos dois, por meio da Palavra de Deus. Não se trata de uma relação de subordinado e chefe, muito menos de senhor e escravo, mas uma relação cristã de discipulado, na qual ambos se ajudam, mesmo sendo o líder alguém mais experiente e, talvez, na condição de dar ordens, muitas vezes. Quem segue o líder não está sujeito cegamente a uma subordinação humana, mas entende que existe Cristo como cabeça entre eles. Por isso a liderança funciona tão bem, pois ninguém é dono do outro, mas existe uma relação que se espelha em Cristo e reflete Sua imagem, como Paulo disse, “sede meus imitadores como em sou de Cristo” (1Co 11.1).

Por meio do Seu exemplo, Jesus ensina que o maior legado de um líder é a formação de outros líderes e, para tanto, investiu o potencial máximo da Sua vida e liderança no desenvolvimento de novos líderes. Ele foi modelo para mentorear outras pessoas. Mentorear não significa transferir conhecimento, mas caminhar com a pessoa e servir de modelo para o seu crescimento. O líder relacional deve ser também como um mentor que decide caminhar e se relacionar com seu mentoreado, a fim de torná-lo um líder maduro, um líder servo e pronto para o ministério cristão.

Esse relacionamento entre duas pessoas só pode existir a partir do fundamento da fé cristã, da qual Cristo é a base e aquele que deve ser colocado como cabeça dessa relação. Por meio d’Ele, cada órgão (membro, parceiro) entra em sinergia
com o outro. Se Cristo é a cabeça do corpo, não há necessidade de o líder receber glória, pois a glória é de Deus. Sendo assim, não existe o peso de reconhecimento por parte do líder relacional, pois o mesmo tem em Cristo a razão da sua missão e n’Ele a sua recompensa.

Portanto, a definição de uma liderança relacional pode ser entendida como a influência que alguém tem sobre o seu liderado, a partir de um relacionamento de amor e de aceitação; uma parceria de vida; um caminhar a dois, baseado na fé cristã, com propósito de aperfeiçoamento para desenvolver o serviço cristão. A liderança relacional tem como objetivo levar o liderado a crescer na graça e conhecimento do Senhor Jesus, por meio do apoio e cooperação mútua numa vivência cristã, da qual fazem parte a prática da oração, o ensino bíblico, a ação misericordiosa, o serviço ministerial, a busca do fruto e dons do Espírito Santo, e o cumprimento do amor a Deus e ao próximo. Todo esse esforço deve conduzir o liderado a também formar outros líderes, por meio do discipulado cristão, gerando uma multiplicação sadia de líderes que sejam discípulos, em cumprimento à missão de Cristo dada para a igreja.

O líder relacional é aquele que vive primeiro um relacionamento com Deus para a glória total e irrestrita d’Ele e, a partir dessa comunhão, vive um relacionamento com o seu liderado, servindo um ao outro mutuamente, em unidade. A liderança relacional encontra a sua base no grande mandamento de Jesus, da qual dependiam “toda a lei e os profetas”, a saber: “amar a Deus de todo o seu coração e ao seu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.36-40).

 

Paulo, um modelo de líder relacional

 

Paulo era destemido e operante na obra do Senhor Jesus, dedicou toda a sua vida a ensinar e propagar o Evangelho por meio das missões que ocuparam a maior parte da sua vida como cristão. Bruce afirma que Paulo “impressiona como um homem cheio de força de vontade incomum, nada fácil de ser desviado da trilha que achava que tinha o dever de seguir”. O apóstolo, sem dúvida, foi uma grande figura bíblica, contudo, o seu trabalho prático também deve ser alvo de estudos e não somente os seus escritos e doutrinas. O que se destaca nesse capítulo é sua liderança vivencial com seu liderado Timóteo.

A liderança de Paulo tinha a influência de homens como Ananias, Barnabé e outros apóstolos, contudo, a sua grande referência, seu mestre maior, Senhor da sua vida, era Jesus. De acordo com Bruce, Paulo foi chamado para ser apóstolo de Cristo aos gentios, portanto, ele não tinha outra opção a não ser obedecer, mas fez isso contente e de todo coração, pois o amor de Cristo o constrangia.

A base da liderança relacional não está em Paulo, mas em Jesus, na Sua vida e exemplo de entrega e investimento para formar seus discípulos em apóstolos. Se Paulo se espelhou na liderança relacional de Jesus, o apóstolo também foi um líder relacional. Segundo Carvalho, “o discipulado de Jesus é um relacionamento que comunica verdade e vida”. Ele acrescenta que o relacionamento é a essência do discipulado de Jesus e que o relacionamento discipulador começa e termina com amor. Comenta que Paulo sentia muito amor pelos seus discípulos e se propôs a comunicar-lhes não apenas o Evangelho, mas a sua própria vida (1Ts 2.8)22. A comunicação do Evangelho é fundamental para o discipulado bem-sucedido e saudável. Usar um material de ensino vai ajudar nessa caminhada, mas nada substitui a influência de uma vida em outra, num relacionamento de discipulado.

Mas do que se trata ser um líder relacional? Quais são as características da liderança relacional de Paulo com Timóteo, que podem ser identificadas e servir como modelo para líderes cristãos? Esses são os destaques nos subpontos a seguir.

 

A metodologia da liderança cristã de Paulo foi o relacionamento

 

Se o modelo de liderança bíblica é de um líder servo, e se a marca da liderança é o amor, a metodologia de ensino é ser um líder relacional. O relacionamento passa a ser o centro da ação do líder, pois só a partir dele se comunica e se aprende os valores do Reino de Deus. Jesus foi, sem dúvida, um líder servo, mas antes precisou ser um líder relacional. Ele não teria ninguém para servir se não tivesse escolhido um grupo para se relacionar, e também não teria como se relacionar bem com seus discípulos, se não recebesse do relacionamento com o Pai essa missão e os direcionamentos para cumpri-la. Ele decidiu dividir a sua vida e por isso investiu a maior parte do seu ministério treinando doze que O acompanhavam, os chamou para O seguirem, para estarem com Ele, e propôs um caminho de desenvolvimento pessoal, baseado não na teoria, mas na vivência e no relacionamento.

Carvalho afirma que o discipulado de Jesus foi um relacionamento de longo prazo, sendo Ele o Mestre e os Seus discípulos os aprendizes. Quando a ênfase está mais no material de estudo bíblico do que no relacionamento, deixa-se de enxergar o que é mais importante no discipulado, a ligação estreita que deve existir entre discipulador e discípulo. Muitos treinamentos hoje são antirrelacionais, pois pouco se aprende na prática e em conjunto, o foco está em livros e métodos e não na convivência para transmitir vida na vida. O fato é que cada treinamento focado no conhecimento sobre Jesus, sem o devido relacionamento com Ele, parece levar as pessoas a um intelectualismo ácido e com pouca ação transformadora.

Se Paulo era modelo para os seus liderados a partir do modelo de Jesus, ele também se tornou um líder relacional. De acordo com Cavalcanti, o método de Paulo na formação e multiplicação de novos líderes, fica bem claro no relacionamento que Paulo mantinha com eles. Ele acrescenta que o apóstolo prezava pela comunhão entre os irmãos, fruto da comunhão individual de cada um com Deus, de modo que o Senhor Jesus fazia o elo entre as partes. Fica evidente para a igreja, a partir dos escritos paulinos, a necessidade de unidade entre os irmãos que, mesmo sendo diferentes, formam um só corpo, e devem cooperar entre si para o mútuo crescimento em amor.

Algumas características importantes da liderança de Paulo, na caminhada relacional com Timóteo, foram: a escolha de Timóteo, a integração dele para auxiliar nas viagens missionárias, o zelo e cuidado com Timóteo por meio das orações e das exortações, a preparação dele para o pastorado por meio da sua consagração e supervisão do seu ministério. Cabe analisar cada uma mais de perto, separadamente.

 

A escolha de Timóteo na missão de Paulo: o aprendizado por meio da convivência

 

O treinamento de um líder só inicia oficialmente quando ele é exposto ao trabalho prático. Muitos têm falhado profissionalmente porque não tiveram a oportunidade de praticar o que aprenderam. Imagine um médico sem residência ou um engenheiro sem a prática do estágio supervisionado. Da mesma forma, a prática deve ser considerada na formação de líderes cristãos. Nada pode ser aprendido verdadeiramente se não for ensinado na prática, e os ensinamentos de Cristo só podem se tornar sólidos na vivência e convivência do cristão com outros cristãos e não cristãos. Por isso, é importante se submeter à formação de líderes cristãos a partir de um mentoreamento, numa relação de discipulado. É fundamental formar líderes relacionais.

O ajudante de Barnabé, Paulo, em sua primeira viagem, encontra Timóteo na cidade de Listra e transmite a ele o Evangelho (At 14.6-8 – 20.21).26 Já na segunda viagem, agora como líder, Paulo convida o jovem Timóteo para se juntar a eles e auxiliar nessa missão (At 16.1-3). Veja que o apóstolo já tinha uma ligação com Timóteo, pois o mesmo conduziu o jovem à salvação em Cristo. Depois, por causa do seu bom testemunho, o jovem também foi escolhido para segui-lo. Lopes diz que Timóteo começou a ser reconhecido como um homem de bom testemunho dentro e fora da sua cidade natal, e isso levou o apóstolo Paulo a convidá-lo para fazer parte da sua equipe missionária, a partir da sua segunda viagem na Macedônia e Acaia, e também na próxima viagem na Ásia Menor.

Nem todas as pessoas têm a missão de pregar o Evangelho como missionárias em viagens, mas cada cristão é um missionário em essência, e suas ações e palavras devem transmitir o Evangelho de Cristo. Da mesma forma que Barnabé escolheu Paulo para ajudá lo na igreja de Antioquia, Paulo convidou Timóteo para ajudá-lo em suas viagens missionárias. Tanto o dever de pregar, como a intencionalidade de escolher pessoas que possam aprender como levar o Evangelho, são fundamentais para o cumprimento da missão da igreja, pois se houver quem pregue, mas se não houver transmissão de liderança, o Evangelho se perderá a cada nova geração. Sobre a seleção de pessoas na atualidade, numa era relacional, à procura de discípulos, Carson faz uma observação simples, mas poderosa:

Olhe a sua volta. Veja as pessoas com quem você já tem muito em comum, a começar pela sua família, e observe os vizinhos e amigos. Nessa esfera natural de influência, estará provavelmente seu maior potencial de mudar o mundo. Seu relacionamento com as pessoas que não conhecem o Salvador se torna um meio de elucidar o Evangelho. A mesma atitude de servo deve ser dispensada aos crentes necessitados de encorajamento e direção de vida.

Carson acrescenta que o próprio Jesus encontrou parte dos seus primeiros discípulos no ambiente doméstico da Galileia. Eram pessoas que tinham muito em comum em relação à cultura, ensino e orientação religiosa. Não eram pessoas socialmente perspicazes, nem as mais religiosas, nem mesmo integrantes do sacerdócio levítico. Contudo, Jesus viu nesses leigos destreinados o potencial para virarem o mundo de cabeça para baixo. Embora fossem superficiais em seu entendimento da realidade espiritual, eram receptivos ao ensino, e pessoas assim podiam ser moldadas em uma nova imagem.

Carvalho afirma que, para que a aprendizagem acontecesse de forma vivencial, era necessário que o discípulo passasse tempo com o seu mestre, ouvisse suas lições, acompanhasse seus passos e visualizasse a sua conduta. Por isso, é necessário que líderes sejam relacionais e escolham pessoas para transmitir a visão e a missão do Reino de Deus. Ao mesmo tempo, para aqueles que almejam crescer na fé e desenvolver seu ministério, é necessário que tenham uma vida discipular e se submetam à liderança madura de alguém que possa ser seu mentor, um padrinho na fé, ou um companheiro da jornada cristã. O ideal para a igreja é que, desde o início da caminhada cristã, os novos convertidos possam se acostumar com a ideia e a prática de ter um discipulador, um líder relacional que possa guiá-los por um aprendizado vivencial.

Um líder relacional procura escolher auxiliares segundo a direção do Espírito Santo e treiná-los para a obra missionária, seja ela de ministério integral ou o chamado universal de todo cristão. Mas não basta que o líder relacional escolha e que o escolhido tenha espírito ensinável, é preciso que esse relacionamento tenha a intencionalidade de imprimir as marcas do discipulado de Cristo.

 

A intencionalidade no relacionamento com Timóteo: o discipulado em Cristo

 

A escolha de Timóteo tinha uma intencionalidade que foi retratada por Paulo nas cartas pastorais, transmitir a homens fiéis aquilo que foi ensinado a Timóteo (2Tm 2.2). Por isso, o trabalho de Paulo não era meramente de ser servido, mas de ter um discípulo em formação ao seu lado. Seria muito mais fácil se o apóstolo tivesse alguém apenas para entregar cartas e para servi-lo, comprando suprimentos e carregando as suas malas. Timóteo fazia essas coisas e muito mais, ele foi auxiliar, entregou cartas às igrejas e fortaleceu a fé dos irmãos a pedido de Paulo (1Ts 3.2). Mas o intuito era forjar na vida desse jovem as lições do que significava ser um discípulo de Cristo.

Toda liderança bíblica precisa ter o alvo de discipular vidas, caso contrário, será apenas um liderado seguindo as ordens de um líder. Segundo Cavalcanti, o discipulado praticado entre Paulo e Timóteo se deu por meio do companheirismo. Os ensinamentos transmitidos e recebidos foram a partir de experiências práticas vivenciadas por ambos. Mesmo em circunstâncias adversas, os dois aprenderam lições para a vida. Por isso, na obra do Senhor, é essencial a transmissão de vida com Cristo, por meio de um relacionamento intenso e dedicado com base no amor cristão. Sanders fala de como se deu esse discipulado por meio da liderança relacional de Paulo.

Uma grande parte do treinamento de Timóteo foi realizado no trabalho, enquanto viajava com Paulo. De seu tutor aprendeu a enfrentar as contrariedades e crises que pareciam rotina na vida e ministério de Paulo. Paulo confiou-lhe a responsabilidade de estabelecer núcleos cristãos em Tessâlonica e confirmá-los na fé. Foi enviado a Corinto – uma cidade difícil onde a autoridade apostólica de Paulo era contestada – para resolver certos problemas.

Conclui-se, portanto, que a formação de líderes por parte de Paulo tinha por princípio inicial o relacionamento com seus aprendizes, mas também a intenção de formá-los discípulos de Cristo. Campanhã disse que, desde o início da sua caminhada como líder cristão, procurou por alguém que pudesse ser seu discipulador, que pudesse mentoreá lo, e pudesse ser um referencial para andar junto e aprender, mas até hoje está procurando. Isso fez com que ele encontrasse muitas dificuldades no caminho. Mas o líder relacional é alguém como pai espiritual para o seu liderado e, por isso, investe em vidas com zelo e cuidado.

 

O zelo e cuidado de Paulo para com Timóteo: sua formação como líder da igreja de Éfeso

 

Fica claro nas cartas pastorais, nas cartas da prisão e cartas principais, o cuidado de Paulo com seu filho na fé, Timóteo. O próprio fato de escrever duas cartas pessoais ao Pastor da Igreja de Éfeso, Timóteo, demonstra a importância desse relacionamento. Sobre isso Cavalcanti diz que

A intencionalidade de Paulo com seus escritos pastorais é mostrar um cuidado paternal para com seus filhos na fé; apontar também para o relacionamento de amizade, cuidado, amor e, sobretudo fidelidade, desenvolvido entre eles. Estes escritos apresentam informações valiosas, tendo em vista o cuidado desprendido pelo Apóstolo em especificar os problemas existentes, bem como orientar quanto à resolução deles.

Lopes diz que Timóteo era um verdadeiro filho na fé, alguém em quem Paulo colocava sua confiança. Essa confiança não veio da noite para o dia, mas foi conquistada por Timóteo, porque Paulo lhe deu a oportunidade de andar junto. Mesmo o jovem sendo tímido, o oposto de Paulo, o apóstolo não o abandonou, mas exortou que pudesse ser perseverante e não considerasse a sua tenra idade (1Tm 4.12-16). Que ele pudesse ser corajoso diante das aflições (2Tm 1.8; 2Tm 2.3-13) e que se fortalecesse na graça de Cristo (2Tm 2.1). Paulo também exorta as igrejas a tratá-lo bem (1Co.16.10).

Nós não transmitiremos aos nossos discípulos o valor da oração somente falando que ela é importante. Eles precisarão verem nós ações concretas voltadas para a oração. Em um relacionamento discipulador, somente valores reais serão transmitidos ao discípulo. Se dissermos que alguma atitude é importante, mas nem ao menos nos esforçarmos para colocá-la em prática, também estaremos transmitindo um valor, mas, nesse caso, será algo parecido com: “Eu valorizo o discurso, mas não a prática”.

Ao discorrer sobre mentoria, Hendricks defende que a transmissão do que se tem de melhor alicerçado no coração, ocorre por meio do ensino que passa de um coração para o outro, pois isso é o que causa impacto no coração do aprendiz. A mentoria no discipulado cristão leva a uma jornada mais relacional e voltada para a prestação de contas, em que tanto o discipulador como o discípulo vivem uma unidade de ajuda mútua que leva ao crescimento com a vivência conjunta. Esse trabalho conjunto proporciona aos dois uma preocupação de não decepcionar o outro, além de uma cobrança do discipulador de si mesmo, por uma caminhada séria com Cristo, a fim de transmitir aquilo que tem vivido.

O líder relacional também cresce e melhora quando ensina ao aprendiz com a sua própria vida, pois se vê forçado a praticar o que diz. A vivência da liderança relacional torna o trabalho desenvolvido de aprendizagem ainda mais valoroso, pois se comprova o aprendizado, atestam-se os resultados. Isso traz alegria e honra para o líder e também para o liderado e, sendo os dois parceiros na caminhada cristã, ninguém poderá dizer que não houve influência na maneira de ser. Assim, a liderança se torna uma amizade e glorifica a Deus pelos frutos alcançados.

 

Considerações finais

Aos moldes de Cristo, Paulo se tornou um líder relacional. Pelo menos dois fatores foram fundamentais para isso, o primeiro deles e mais importante foi o seu encontro com Jesus, seguido de um relacionamento vibrante, uma relação de submissão e total entrega ao Senhorio de Cristo. O segundo fator, como exposto no capítulo, foi a relação de mentoria de Barnabé na sua formação, tornando-se esse um líder maduro e multiplicador de liderança. Cavalcanti observa a importância do discipulado desenvolvido por Barnabé que viu em Paulo um grande potencial e investiu de si nele, comunicando amor, cuidado, paciência e ensino prático do Evangelho. “Barnabé proporcionou a preparação inicial daquele que iria vivenciar um intenso e produtivo ministério para o Reino de Deus”.

A vida de Paulo estava intimamente ligada a Cristo, de tal maneira que são inúmeras as declarações de entrega total à vontade de Cristo, e não são apenas palavras. O texto bíblico revela demonstrações de uma vida completamente rendida ao serviço de Jesus (Gl 2.20; Fl 4.12; 2Tm 3.11). Paulo também era um líder estratégico, pois sua vida refletia uma filosofia de liderança relacional que ele aprendeu na prática com seu mentor Barnabé, o método de Jesus, relacionar-se intencionalmente com seus seguidores, a fim de formar discípulos. Como disse Moore, a Bíblia “mostra um Cristo profundamente interessado em indivíduos”. Esse autor ainda acrescenta que os ministérios de Jesus e do apóstolo Paulo são um modelo de entrega em serviço aos seus discípulos, investindo tempo em companhia com eles, com o intuito de transmitir com a própria vida os princípios de Deus.

Na carta pastoral a Timóteo, Paulo deixa claro essa dinâmica relacional de sua liderança. Ele orienta o pastor da Igreja de Éfeso a levar a cabo o relacionamento com outros homens, da mesma maneira que foi ensinado pelo apóstolo com uma vida dedicada a ele (2Tm 2.2). Essa transmissão da qual Paulo diz não está desassociada de relacionamento, pois, ao observar a descrição dos detalhes de companheirismo do texto bíblico, vê-se uma transmissão com o fator vivencial. O caminhar lado a lado e o fazer discípulos aos moldes de Cristo foi levado a cabo pelos apóstolos que fizeram discípulos, e também por Barnabé que discipulou Paulo, e por Paulo que discipulou Timóteo, que agora deveria manter o ciclo do discipulado.

Muitas vezes, as leis da liderança desse mundo vão entrar em conflito com a Palavra de Deus e com o discipulado de Jesus, por isso é fundamental defender uma liderança relacional, tanto no sentido vertical, como no sentido horizontal. O sentido vertical do líder relacional deve atentar para nunca confiar nos seus próprios braços e deixar de ouvir o Espírito Santo sussurrando no seu interior. O ministério do Espírito Santo é o relacionamento real do líder no sentido vertical. Segundo Hybels, “os líderes cristãos não podem exercer influência sem a direção do Espírito Santo. Para ser eficiente, há necessidade de algo mais que as leis da liderança feitas por homens; a atuação da Bíblia e do ministério do Espírito Santo nunca pode ser subestimada”.

O sentido horizontal vem do próprio chamado do Senhor Jesus de fazer discípulos de todas as nações, batizando-os e ensinando-os a guardar todas as coisas que Ele ensinou (Mt 28.19-20). Sobre a missão e o propósito dos líderes, Cavalcanti resume que:

Jesus deixou propósitos discipulares à uma liderança estabelecida com a função de funcionar como modelo para todos os que fossem sendo agregados ao corpo. Liderança esta que deveria formar novas lideranças, promovendo a preservação dos princípios contidos na mensagem do Mestre, em que, através do fazer novos discípulos, todos os envolvidos vivam o crescimento espiritual proposto por Deus a seus filhos.

É possível associar o papel do líder com o discipulado quando ele encara a sua posição para governar a igreja e liderar as pessoas, não de maneira organizacional, mas como organismo e corpo de Cristo, submetendo-se à metodologia relacional e não à hierárquica impositiva. Segundo Sousa, “a vocação cristã é essencialmente relacional. O convite ao discipulado é um convite à comunhão pessoal com Deus e com a família da fé”.

O líder relacional se submete à liderança de Cristo sobre a sua vida e, ao mesmo tempo, lidera também outras vidas numa relação de cooperação para o crescimento do Reino de Deus, assim como foi demonstrado na vida de Paulo e Timóteo. Para que esse líder relacional tenha sucesso, ele precisa seguir, todos os dias, os passos da liderança servil de Jesus e adquirir os valores do Reino de Deus para poder transmitir aos seus liderados. Essa não é uma tarefa fácil, é um processo para toda vida e, portanto, quem lidera precisa viver aos moldes do discipulado de Cristo. Também precisa agir como um pai espiritual para os seus liderados, usando da mesma paciência que o Pai celestial teve e tem para com os líderes no desenvolvimento da vida cristã, como testemunhou Campanhã:

Com o passar dos anos no ministério da igreja, vim a entender que Deus queria fazer na vida daquelas pessoas o mesmo que havia feito na minha. No entanto, Ele, normalmente, só faz algo na vida dos membros da igreja quando pode fazer o mesmo na vida dos seus líderes e pastores. É por essa razão que o discipulado não é apenas um método, mas um processo. Esse processo começa na vida dos líderes e depois se estende a vida dos liderados; é um processo operado por Deus que age o tempo todo.