Por: Profa. Dra. Sandra de Fátima Krüger Gusso.

Desde o início da colonização do Brasil a religião católica predominou no país, mas a vinda de imigrantes protestantes trouxe mudanças em muitas áreas, inclusive no campo religioso. Apesar de o protestantismo não ter alcançado o destaque que o catolicismo alcançou, desde o início de sua implantação no Brasil, deixou na história suas marcas e seus benefícios para a sociedade, principalmente no que se refere às questões educacionais e à liberdade de ideias.

Antes de prosseguir é preciso esclarecer o que é protestante. Entende-se como protestante, aquele que protesta contra alguma coisa. O dicionário da língua portuguesa elaborado por Bueno da Silva define o termo “protestante” da seguinte forma: “o que diz do partido da Reforma (luteranos, calvinistas, anglicanos etc.)” (1981, p. 916). Neste caso, pode-se dizer que protestante é aquele que vai contra as doutrinas da Igreja Católica. Mas não é só isso que o define. Para DILLENBERGER E WELCH, significa seguir os princípios dos grandes reformadores, a saber: a justificação pela fé, o direito e o dever do juízo final em matéria de fé e a autoridade das escrituras (1954, p. 282). E ainda, é tido como um movimento histórico que surgiu na Europa Ocidental e está relacionado com outros movimentos sociais, econômicos e políticos. Pensando mais além, o protestantismo significa certas formas de pensamentos e declarações de fé, maneiras de adorar, grupos de pessoas unidas em certos continentes geográficos (WELCH 1954, p. 284). Rubem Alves, ao analisar a ideologia protestante, afirma que: O protestantismo foi, em primeiro lugar, uma simples modificação do catolicismo, no qual a formulação católica dos problemas foi mantida, enquanto que uma resposta diferente lhes era oferecida (1982, p. 32).

Algumas denominações são realmente consideradas protestantes, como é o caso dos luteranos, seguidores de Lutero; dos presbiterianos, cujas doutrinas estão baseadas na teologia de Calvino; e a Igreja Anglicana. As demais não são protestantes porque não protestaram contra nenhuma igreja. São ramificações do protestantismo, denominadas evangélicas. Como esta questão aparece dentro de um mesmo tema: protestantes, para alguns autores ainda não é um ponto de clara identificação. Para este artigo, o termo protestante será dado a todo aquele cristão que se diz “não católico”. Serão incluídas no grupo, principalmente, as denominações históricas que surgiram depois da Reforma protestante de Lutero.

O protestantismo entrou no país como um movimento religioso apoiado por questões econômicas e políticas e se desenvolveu durante o período republicano. De início não foi uma questão pacífica, pois tentar penetrar em um país onde o pensamento religioso da sociedade estava fundamentada na tradição religiosa estabelecida pela Igreja Católica desde o descobrimento, não era uma coisa simples. Desta forma, “Durante o período colonial não foi possível devido ao monopólio do catolicismo” (RAMALHO, 1976, p.52). Contudo, houve algumas tentativas que não alcançaram êxito. A primeira delas foi em 1555, quando chegou ao Brasil a expedição de Villegaignon, o qual pretendia fundar a França Antártica e construir um refúgio onde os huguenotes pudessem praticar livremente o culto reformado. Mas não deu certo, pois Villegaignon foi expulso da colônia de Guanabara em 1560 (MENDONÇA, 1984, p. 18). Desta forma não foi possível difundir de forma ampla ideias protestantes no Brasil naquele período.

Uma segunda tentativa foi realizada “no período holandês”, na Bahia (1624-30), quando reformadores se estabeleceram no nordeste com toda sua organização eclesiástica à moda genebriana. Durante 15 anos Pernambuco e algumas áreas do nordeste foram protestantes. (MENDONÇA, 1984, p.18,19). Mas também não houve espaço na sociedade para continuar divulgando o protestantismo em outras regiões. Ainda não foi desta vez que o protestantismo iria ser implantado no Brasil. A situação ficou mais restrita com uma lei estabelecida em 1720, proibindo qualquer pessoa de entrar no Brasil, se não estivesse a serviço da Coroa ou da Igreja. As tentativas de se implantar uma nova religião no Brasil, seja por expedições ou por presença, não deram certo e nem deixaram traços, pois da mesma forma que grupos protestantes tentaram entrar no país, saíram sem deixar influências.

O quadro social, político e econômico do Brasil começou a tomar outras direções com a vinda da família real. Dom João VI trouxe novas ideias, causando mudanças na política do país. A abertura dos portos foi um dos fatores que favoreceu o progresso do país nas diversas áreas sociais. Foi um período que também deu início às imigrações e à obra de colonização de várias províncias. A entrada de estrangeiros fez-se de acordo com as leis do Império, inclusive com liberdade para a prática religiosa. “O Tratado do Comércio e Navegação, de 19/2/1810, traçou as diretrizes que iriam garantir a todos o direito de praticar a sua religião particular, desde que não perturbassem a paz pública ou tentassem fazer proselitismo entre os católicos” (REILY, 1995, p.41).

Aproveitando o momento histórico da política de boas relações sociais e econômicas, os protestantes chegam ao Brasil junto com a imigração. Eram, na maioria, de origem norte-americana e europeia. Isso aconteceu em meados do século XIX. Apesar de o monopólio católico ainda existir, encontraram brechas na sociedade para penetrar e se desenvolver. “Até 1824, ingleses, alemães, suecos e americanos foram chegando e vivendo sua fé conforme a situação lhes permitia” (MENDONÇA, 1984, p.20). De acordo com RIBEIRO, em 1824 desembarcaram os futuros componentes da primeira colônia de protestantes e, neste mesmo ano, realizaram o primeiro culto evangélico em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro (1973, p.12). Esta colônia era formada por 334 imigrantes, os quais tinham como líder espiritual o Pastor Fridrich Oswaldo Sowrbronn. Depois desta, outras se fixaram nas regiões de São Paulo (1827 – 1829), Santa Catarina (1828 – 1850) e Paraná (1829). (REILY, 1993, p. 50,51).

Através da Constituição de 1824 os protestantes, de forma inibida, conseguiram conquistar espaço na sociedade. Esta constituição, no seu art. 5º, apresenta o seguinte: Art. 5º. – A religião Católica Romana continuará a ser a religião do Império. “Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto domestico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo” (REILY, 1993, p. 42).

Até o período da República a norma era essa para os protestantes. Eles poderiam se reunir em casas para realizar seus cultos, desde que essas casas não tivessem nenhuma aparência de igreja. Não podiam ter cruz, sinos ou qualquer outra característica de igreja. Não se importando com a aparência dos locais de culto, mas com o propósito do culto, os protestantes realizavam suas práticas religiosas em casas, escolas ou em capelas erguidas conforme determinação da lei.

Como se não bastasse a limitação que tinham para realizar suas práticas religiosas, os primeiros protestantes experimentaram a discriminação da sociedade, que tinha a religião oficial, a católica, arraigada no coração e na mente. Esta mantinha influência na sociedade de tal maneira que fazia a vez dos cartórios. Para se tornarem válidos os casamentos, registros de nascimentos, trâmites de herança, a pessoa teria que comprovar que era batizada na Igreja Católica. Isso sem dúvida prejudicava a comunidade protestante que necessitava dos cartórios para efetivar seus registros. A situação foi ficando cada vez mais difícil ao ponto de o governo ter que interferir nas leis do país para possibilitar que todos convivessem em harmonia, mesmo sendo de diferentes práticas religiosas.

Os protestantes, ao se estabelecerem no Brasil, passam a se interessar pela vida espiritual de suas comunidades de forma mais efetiva no período republicano, em que várias agendas missionárias começam a investir na área espiritual dos estrangeiros protestantes que residiam no Brasil. No início “Os ingleses e americanos constituíam comunidades religiosas fechadas à sociedade brasileira, ao passo que os alemães e suíços, pela falta de assistência religiosa, foram sendo absorvidos pela sociedade abrangente, ao ponto de grande parte deles abandonarem a antiga fé” (MENDONÇA, 1984, p. 21). EMILE diz que: “fora das colônias estrangeiras, não havia protestantismo algum. Em 1888, a Igreja Presbiteriana, então a mais desenvolvida no país, contava com mais de 50 comunidades para apenas 20 missionários” (1981, p. 85). Nota-se que, a princípio, os protestantes não tinham interesse em divulgar suas crenças; estavam interessados em apenas suprir as necessidades espirituais de seus grupos. Mas, percebendo que teriam aceitação fora de suas comunidades, começaram a investir no trabalho de evangelização com a ajuda das missões.

O número de protestantes vindos com a imigração, principalmente americanos e europeus para o Brasil era significativo. Para cuidar da vida espiritual desse povo era preciso a presença de um líder espiritual. Como no início não era possível ter a presença de um pastor para cada comunidade, eles utilizavam o leigo, “em algumas, os membros eram os que espontaneamente dirigiam os trabalhos na falta de um pastor fixo. Os obreiros continuavam a evangelização, pois, ficando imbuídos da paixão de evangelizar, sonhavam com planos de alcançar o maior número possível de pecadores com sua mensagem” (LEONARDO, 1981, p. 88).

Para obter-se uma visão mais ampla da implantação das missões protestantes em solo brasileiro, será traçada uma abordagem cronológica sobre a chegada dos primeiros missionários e suas diversas denominações. Em 1836 chega ao Rio de Janeiro o primeiro missionário metodista, o Reverendo Fountain E. Pitts, do Board of Mission of the Methodist Episcopal Church in the United States que começou a pregar em residências particulares. Outro metodista, o Reverendo Justus Spaulding, também ajudou na organização da Igreja, a qual foi inaugurada com 40 membros. Em 1862, Simonton abre a Primeira Igreja Presbiteriana e começa um trabalho com brasileiros no Rio de Janeiro. Em 1871, os metodistas e os batistas fundaram uma Igreja em Santa Bárbara. Em 1876, o Reverendo J. J. Ranson, fundou definitivamente a Terceira Igreja Metodista no Brasil, com seis pessoas, todas estrangeiras. O segundo grupo de protestantes foi o da Igreja Congregacional, fundada em 1858, em Pernambuco, Esta realizou trabalhos com brasileiros. Em 1889 a América Church Missionary Society enviou dois jovens para o Brasil, os Reverendos James Wattson Marris e Luciem Lee Kinsolving (MENDONÇA, 1984, p. 23, 24, 26).

Assim, as denominações começaram atividades missionárias em solo brasileiro. Na lista dos missionários que iniciaram atividades religiosas no Brasil, Robert Kalley, médico escocês, músico, se destaca como sendo o primeiro a realizar trabalhos religiosos em português. Ele fazia da música um instrumento de evangelização (MENDONÇA, 1984, p. 185). Esta forma de evangelização, mesmo que inibida, chamava a atenção, pois além de ser uma pessoa profissionalmente conceituada na sociedade, sabia que a música atrai e cativa as pessoas.

Os primeiros missionários tinham não só a tarefa de evangelizar, mas também de orientar a instrução escolar das comunidades. Essa questão da educação escolar ser de responsabilidade do pastor nas colônias de imigrantes era devido ao fato de que a situação escolar da época deixava muito a desejar; estava realmente precária. A situação “começou a mudar a partir de 1860, quando a presença de missionários norte-americanos tornou possível a instalação de escolas para os filhos dos imigrantes protestantes, sobretudo no Oeste paulista”. (MESQUIDA, 1994, p. 65). Foi o primeiro passo para a abertura e desenvolvimento da educação protestante no país. A necessidade de educação formal para as crianças estrangeiras, juntamente com o interesse de preservarem a fé cristã baseada nas doutrinas e crenças protestantes, fez com que as comunidades religiosas contribuíssem para a proliferação de escolas protestantes em diversas localidades onde havia estrangeiros que abraçavam a mesma fé.

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