Por. Prof. Me. Willibaldo Ruppenthal Neto.

 

Jacques Le Goff (1924-2014) foi, em poucas palavras, um historiador francês especialista em Idade Média. Uma sentença tão curta, porém, não expressa nem um pouco seu devido valor. Mais do que apenas um historiador, Le Goff foi alguém com uma obra imensa e viva, cuja influência atravessou oceanos, como se pode perceber pelas traduções de seus livros para inúmeras línguas. Seu recente falecimento (1 de abril de 2014), portanto, não foi sentido apenas pelos seus colegas dos Annales, mas por companheiros, alunos e admiradores do mundo todo, que tiveram a consciência de estarem perdendo não apenas aquele que era considerado o maior medievalista vivo, como também um dos grandes historiadores de nosso tempo.

Esta resenha visa ser uma homenagem in memoriam a esse autor cuja contribuição ultrapassa o campo da história, sendo leitura obrigatória a todo teólogo que deseja conhecer profundamente a história da igreja ou mesmo da teologia na Idade Média. Suas pesquisas são leitura obrigatória em diversas áreas, desde os estudos de São Luís e São Francisco, da história intelectual, econômica e, especialmente, do imaginário medieval.

A obra aqui resenhada, O Deus da Idade Média, não é um texto acadêmico, mas antes uma entrevista, uma conversa com o historiador Jean-Luc Pouthier publicada na França em 2003 pela editora Bayard4 e logo traduzida para o Brasil por Marcos de Castro, sendo publicada pela Civilização Brasileira e tendo sua segunda edição em 2010, a edição utilizada nesta resenha. Trata-se, tanto pelo seu texto informal e curto quanto pela autoridade e competência do autor, de uma excelente introdução ao estudo da ideia de Deus na Idade Média.

Diferente do que ocorre em outras religiões, tais como o islamismo e o judaísmo, o Deus cristão pode, foi e é representado. Da Antiguidade Tardia, em que o Cristianismo surge, até a atualidade, a representação de Deus passa a se dar cada vez mais a partir de elementos antropomórficos, ocorrendo tal processo “essencialmente, durante o período medieval” (p. 10). É na Idade Média que Deus assume feições humanas, a partir dos elementos e da própria natureza da sociedade que o imagina e o concebe. Durante esse período, porém, “as imagens de Deus mudam com o correr do tempo” (p. 12), de tal forma que as próprias pessoas da Trindade são destacadas em determinados momentos: “O Deus concreto dos homens e das mulheres da Idade Média foi ora o Deus Pai, ora o Deus Filho, ora o Espírito Santo” (p. 12), de acordo com os anseios, necessidades e mesmo compreensões teológicas diferentes ao longo do período medieval. Assim, mesmo que para a teologia Deus não mude como sombras inconstantes (Tiago 1.17), “existe para o historiador, e consequentemente no saber humano, uma história de Deus” (p. 13), uma vez que sua compreensão e representação passam por grandes transformações ao longo do tempo.

A história do Deus cristão começa na Antiguidade Tardia. Acompanhando o processo de romanização do cristianismo, o Deus cristão recebe sua forma. Nesse processo, ainda segundo Le Goff, não apenas uma ideia teológica nova – o monoteísmo – como inclusive um Deus oriental, é assumido pelo Ocidente, reconfigurando não apenas a estrutura religiosa, como ainda a própria identidade e religiosidade da população. Nessa mudança, houve resistência por parte do povo não tanto pelos deuses pagãos abandonados, mas principalmente por “certas práticas ligadas à magia ou antes àquilo que o cristianismo chamará de superstição: culto das árvores, culto das fontes; e isso vai continuar, pouco mais ou pouco menos, em surdina, durante a Idade Média” (p. 21). Nessa passagem ao monoteísmo, o Deus cristão não assume os espaços sagrados pagãos, cujos templos são destruídos, mas reorganiza a configuração do espaço. A antiga mitologia é parcialmente apagada, ao mesmo tempo em que elementos cristãos tomam o lugar deixado pelo paganismo, tal como acontece com os santos, “que vieram a substituir os antigos heróis pagãos” (p. 30).

Apesar das várias heresias que surgiram desde o início do cristianismo, que questionavam especialmente a Trindade, “o Deus do Ocidente medieval não foi atingido em profundidade por essas heresias” (p. 37). Para a maioria dos cristãos – a grande massa de leigos -, cada pessoa da Trindade era vista separadamente, de modo que “na vida cotidiana, e em algumas ocasiões, o cristão ou a cristã da Idade Média dirigiam-se mais particularmente a uma ou a outra dessas pessoas” (p. 37). No início da Idade Média, o Pai teve destaque, sendo visto como “um homem idoso, a um tempo diretor e protetor” (p. 37), cuja principal característica era a autoridade. Num segundo momento, o Filho “se desliga do Pai e atrai mais as orações e a devoção dos fiéis” (p. 38), cujo caráter de humanidade e piedade levaram-no a ser o principal objeto de clamor durante os tempos de crises, epidemias e guerras. O Espírito Santo, porém, somente penetra na vida social e ganha destaque na vida espiritual dos cristãos a partir do século XIII, com o desenvolvimento do tema dos sete dons do Espírito Santo, passando a ser o Deus das confrarias e hospitais, invocado não somente na doença como na vida profissional.

O caráter individual e mesmo independente das três pessoas da Trindade leva Le Goff a propor uma ideia de “politeísmo medieval” (p. 49-50), uma vez que o homem medieval não apenas tendia a recorrer e se relacionar especialmente com uma das pessoas, como ainda as tentativas de “unificação” da Trindade acabavam por ter como resultado imagens monstruosas da Trindade tricéfala (um só corpo e três cabeças) ou ainda trifaciais ( uma só cabeça com três rostos), suscitando a oposição mesmo de clérigos como Santo Antonino. Mesmo assim, porém, certa compreensão e abstração da Trindade foi realizada na Idade Média, de forma que a Trindade pôde ser representada com unificação no sofrimento e na glorificação, “as duas imagens dominantes do Deus medieval” (p. 55).

Sociedade e religião encontram na Idade Média plena relação, de modo que “as ligações entre Deus e a sociedade feudal estão entre as mais estreitas da história” (p. 58). Tanto as questões religiosas afetaram as sociais como o oposto também ocorria. Dessa forma, não apenas a promoção de Maria tem como consequência a promoção da criança, como também a peste, entendida como “um castigo de Deus para o pecado dos homens” (p. 60), promove o aspecto da cólera de Deus e ressalta o Pai como o Deus da punição” (p. 61). A principal influência cristã na sociedade, porém, se dá pelas duas grandes virtudes cristãs: a justiça e a paz. Essas virtudes, porém, se distanciaram em muitos aspectos do ideal cristão. Pela justiça, a aristocracia guerreira realizava barbaridades. A paz, por outro lado, foi associada aos príncipes e reis, representantes de Deus na terra, ou melhor, imagem de Deus: Rex imago Dei (p. 80). Tudo é relacionado a Deus, assim como Ele é tido como “o ponto mais alto e o fiador” (p. 83) do sistema feudal: “O regime feudal e a Igreja eram de tal forma ligados que não era possível destruir um sem pelo menos abalar o outro” (p. 83).

A importância da Igreja na Idade Média ultrapassa a terra e alcança as próprias chaves do céu. Sendo a única que distribui os sacramentos, o homem não poderia se salvar senão “pela Igreja e graças à Igreja” (p. 88). A Igreja se coloca como elo ao mesmo tempo em que separa e restringe o contato com o divino, de tal forma que há na Idade Média um conflito por clérigos e leigos entre “as aspirações a uma devoção coletiva, e enquadrada pela Igreja, e uma devoção individual, sem intermediário” (p. 89). Em São Martinho e São Francisco de Assis se têm exemplos de religiosos que buscaram um contato pessoal com Deus para além do coletivo. Além de coletiva, a relação com Deus estabelecida pela Igreja era de caráter intelectual. A reflexão sobre Deus, porém, era direcionada pela Igreja. O “Deus dos teólogos da Idade Média era seguramente o Deus da Bíblia” (p. 94 ), já que se deu a partir de uma reflexão relacionada à leitura e mesmo ao estudo aprofundado das Escrituras, a exemplo dos “quatro sentidos da Escritura”. Também a oração era restringida pela Igreja, que não somente oferecia os modelos aos fiéis como também fez “com que se falasse latim com Deus” (p. 100). Os milagres, por outro lado, não puderam ser totalmente contidos pela Igreja, que via uma multiplicação de relíquias e práticas cuja desordem não podia controlar. Uma solução foi a identificação de determinadas práticas e situações com Satã, mediante “uma noção nova, o mágico” (p. 105).

No que diz respeito à Reforma, Le Goff solta poucas ideias ao longo do texto e de forma bastante fragmentada – afinal, não é o objeto de seu estudo. Apesar de afirmar que os reformadores “voltaram em parte ao Deus da cólera do Antigo Testamento” (p. 71 ), indica bem que a necessidade sentida pelos cristãos medievais de terem um acesso direto e pessoal a Deus provavelmente foi “uma das condições favoráveis ao nascimento da Reforma, na qual muitos pensaram achar um acesso mais autêntico e mais direto a Deus” (p. 100). Sua afirmação de que “não existe culto às imagens no mundo do cristianismo latino” (p. 70) é contrariada não somente pelos reformadores, cujo caráter iconoclasta se motivou pelo culto às imagens, como também pelo próprio representante da Reforma Católica, Erasmo de Roterdã, que em seu Elogio da Loucura escreve – valendo-se da “voz” da Loucura – que “as pessoas estúpidas e grosseiras adoram a estátua em vez do santo”.

A obra de Jacques Le Goff, portanto, apesar de deixar determinadas questões em aberto – tal como as origens da Reforma protestante -, trabalha de forma magistral sobre o que se propõe: discorrendo sobre os principais elementos da ideia de Deus na Idade Média, oferece um panorama que apresenta não apenas os vários campos de análise – sociedade, Igreja, cultura, economia- como ainda o desenvolvimento da ideia no imaginário medieval, acompanhando e mesmo resultando nas diversas transformações nesses campos. Trata-se de um retrato simples e preciso de uma realidade complexa e fluida- uma das várias preciosidades do legado de Le Goff.

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