Resumo

 

O  tempo  é  assunto  presente  em  todo  o  Antigo  Testamento,  porém, pouco  discutido  na  atualidade.  É  possível  encontrar  grande  quantidade de  material  que  se  refere  ao  tempo  no  pensamento  grego,  bem  como,  os termos utilizados para defini-lo. Isso não acontece com o  estudo atual do tempo no Antigo Testamento. Assim, este trabalho propõe uma avaliação do  conceito de tempo no pensamento hebraico, apresentando a relevância da ordem temporal para a compreensão do conhecimento da história e de algumas narrativas bíblicas. A observação de alguns termos importantes, na análise do tempo, também recebe ênfase neste  artigo.

Palavras-Chave: Tempo; Antigo Testamento; Pensamento Hebraico; Eternidade.

 

Introdução

 

No  pensamento  moderno  a  concepção  de  tempo  é  linear.  Nosso  pensamento  se  projeta  para  uma  realização  futura,  não  importa  qual  seja,  esquecendo-se,  em  muitos  momentos  de    observar  como  se  dava o  conhecimento  do  tempo  em  outras  épocas,  ou  eras.  Apesar  disso,  em muitos meios, como na filosofia moderna, acredita-se que o estudo do tempo  está  sendo  levado  mais  a  sério  do  que  em  outras  épocas,  como no período da filosofia antiga ou  medieval. Entretanto, pouco se estuda o  tempo  passado,  que  é  de  fundamental  relevância  para  uma  melhor compreensão do passado e do futuro.Para uma melhor compreensão do tempo é necessário acompanhar a evolução que o homem  teve do mesmo. Assim, o estudo do tempo através do principal povo retratado no Antigo Testamento, o povo de Israel, dá boa direção sobre o desenvolvimento que o homem teve  nesta área. O  estudo  será  centrado  no  uso  e  no  exame  de  termos  importantes,  que mostram a  noção que o povo hebreu possuía sobre o tempo.

 

I – AS UNIDADES DE TEMPO

 

Existem  muitos  dados  cronológicos  em  todo  o  Antigo  Testamento. 

Nos livros mais antigos as  datas são representadas somente através de anos,  e  estes  não  podem  ser  comparados  com    nenhum  dado  extra bíblico.  Em  alguns  momentos  tais  problemas  parecem  não  ter  solução. 

Entretanto,  algumas  datas  podem  ser,  com  facilidade,  convertidas  ao  nosso calendário,  como  acontece  com  os  livros  de  Crônicas,  Jeremias, Ezequiel, Daniel e outros.  Dockery  traz  a  afirmação  de  que  a  interpelação  bíblica  não  se apóia  somente  nos  pormenores  gramaticais,  mas  também  na  situação histórica, e é justamente para melhor definir a situação histórica que é preciso definir a questão cronológica. Ele cita E. A. Thiele dizendo que: “a  cronologia  é  a  espinha  dorsal  da  história”. Desta  forma,  é  extremamente  importante    compreender  os  aspectos  temporais  do  Antigo Testamento. Entre as divisões de tempo que os  Hebreus, os Babilônicos e os Mesopotâmios faziam, havia as seguintes unidades que serão  aqui destacadas: o ano, o mês, a semana e o dia.¹

 


1.1 O ano

 

O  ano  era  contado  com  base  nas  estações  que  ocorriam  sucessivamente segundo o ciclo solar de 365,25 dias. Pelo fato dos meses derivarem do ciclo lunar e os anos do solar, eles não mantinham sincronismo exato. Assim havia o ano lunar, que era o ano de 12 meses, e o ano solar de aproximadamente 365 dias. O ano lunar era favorável para os nômades,  que    deslocavam  seus  rebanhos  de  acordo  com  as  estações;  entretanto,  os  lavradores  da  Palestina  e  o  povo  do  Egito  e  da  Mesopotâmia precisavam de um calendário que tivesse harmonia com o sol. Assim, na Mesopotâmia, uma transformação linear entre os anos lunar e solar foi desenvolvida por meio do acréscimo de um mês extra, quando necessário. Essa intercalação era necessária sete vezes em dezenove anos.

Roland  de  Vaux  afirma  que,  desde  uma  época  muito  antiga,  a Mesopotâmia manteve-se fiel a um calendário lunar, onde o ano compreendia doze meses de 29 ou 30 dias, começando cada mês na noite em que se  começava  a  ver  o  novo  crescimento  da  Lua.  No  Egito,  prevaleceu  o calendário solar aproximado que contava doze meses de trinta dias, mais cinco dias extras a  cada ano.

Nos primeiros tempos houve competição entre o ano solar egípcio e o ano lunar usado no Oriente Próximo e nos países do Mediterrâneo. O ano lunar possuía a desvantagem de  retardar-se cerca de 11 dias em relação ao solar, o que causava uma falta de correspondência entre as estações e os meses. Por isso,  de  tempos  em  tempos,  a  diferença  precisava  ser  anulada,  para  que  os meses  de  verão  não  começassem  no inverno.  Foi  por  esta  razão  que  César, ao  observar  que  o  ano  legal  estava  atrasado 67  dias,  decretou  que  o  ano  45 a.C. teria 445 dias e que os seguintes 365. Os egípcios, cujo ano solar possuía doze  meses  e  trinta  dias,  resolveram  o  problema acrescentando  cinco  dias móveis.  Os  judeus  aguardaram  até  que  o  erro  abrangesse  um  mês inteiro  e depois inseriram um mês extra, Veadar, entre os meses da primavera, Adar e Nisan. A intercalação deu-se de maneira empírica, baseando-se nas atividades agrícolas e no princípio que as espigas de cevada deveriam estar maduras  na  Páscoa.  Certas  passagens da  Bíblia  parecem  insinuar  que  nos  dias de Moisés o ano pode ter sido solar, pois, por exemplo, quando ele morreu na terra de Moabe, o luto oficial durou trinta dias. Entretanto,na época de Cristo, é absolutamente certo que o ano lunar de 354 dias estava em uso e que era  tão  comum  que  a  própria  palavra  empregada  em  hebraico  para  “mês” também significava “lunação”. A datação dos judeus nos primeiros tempos, era baseada  simplesmente  numa  ocorrência  de  destaque  como  “Dois  anos antes do terremoto” (Am 1.1), ou a partir de um soberano reinante. Vaux confirma a posição de Daniel-Rops e Lasor, dizendo que, no Egito,  primeiramente  foi  adotado  o  calendário lunar  e  de  tempos  em tempos  se  acrescentava  um  mês  lunar,  até  que  no  começo  do  terceiro milênio  a.C. para  evitar  reajustes  arbitrários,  estabeleceu-se  um  ano solar. O ano de 364 dias dos jubileus é um ano solar, só que contado de maneira  menos  exata  do  que  o  ano  egípcio  de  365  dias.  Os  israelitas, provavelmente, conheceram esse ano; isso pode ser verificado no texto de Gn 5.23; ali há a afirmação de que o patriarca Enoque viveu 365 anos. Este número, 365, representa um número perfeito e são os dias de um ano solar. De Vaux  afirma ainda que não há provas de que tenha prevalecido em  Israel  um  calendário    propriamente  solar. Os  estudiosos  acreditam que os hebreus padronizaram seu calendário de acordo com as práticas babilônicas, pelo menos na época do exílio. Concordando com Lasor, De Vaux fala que o sol e a lua são os sinais para marcar festas, dias e anos, bem como a contagem do tempo. O autor fala que a  unidade  mais  fácil  de  ser  observada  era  o  dia,  enquanto  que  o  mês  lunar não contava um número completo de dias, pois as suas lunações somavam apenas  354  dias,  8  horas  e uma  fração;  assim,  o  ano  lunar  tinha  11  dias  a menos  que  o  solar.  Desde  muito cedo,  no  oriente,  o  desenvolvimento  das instituições civis e religiosas, as festas cultuais e os contratos estabelecidos entre indivíduos, exigiram que se fixasse a data de acontecimentos passados ou de prazos futuros. Assim, aconteceu o  estabelecimento do calendário oficial, que variou de acordo com o tempo e a região. Os  hebreus  ainda  possuíam  o  ano  civil  e  o  ano  sagrado.  Nos  tempos primitivos era a festa da colheita que marcava o fim de um ano e o início do outro.  Durante  o  exílio  babilônico  os  judeus  adotaram  o  calendário  designado  segundo  Nipur,  no  qual  o ano  começava  no  equinócio  da  primavera.  Este os judeus retiveram quando voltaram para Judá, isso, por causa de suas relações internacionais. É por esta razão que havia dois anos legais. O religioso, que iniciava no outono, no primeiro dia de Tisri, e era festejado com muita alegria, e o civil, que  começava sete meses antes.

 

CLIQUE AQUI PARA CONTINUAR A LEITURA

 

¹ Daniel-Rops fala que “todo mundo em Israel estava mais ou menos familiari- zado com as histórias do livro de Enoque, obra que os rabinos consideravam inspirada, mas que não foi incluída no cânon. A partir deste livro, todos sabiam que o arcanjo Uriel havia mostrado a Enoque as tábuas do céu e lhe ensinara a medir o tempo que o Senhor fez, bem como a contar os anos, os meses e os dias, atentando para os anjos que governavam o curso das estrelas. A medida do tempo tinha origem divina, enquanto a estrutura matemática de todos os acontecimentos e obras era humana”. (DANIEL-ROPS, H. A vida diária nos tempos de Jesus, p. 121). 5 LASOR, W. S. Op. Cit., p. 689-690.

 

LASOR, William S.et. al. Introdução ao Antigo Testamento. Trad. Lucy Yamakami. São Paulo: Vida Nova,  1999. p. 688.

 

DOCKERY, David (edit.). Manual bíblico Vida Nova. Trad. Lucy Yamakami e Hans Udo Fuchs. São Paulo:  Vida Nova, 2001. p. 78-79.

 

LASOR, W. S.Op. Cit., p. 689-690.

 

VAUX, R. de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Trad. Daniel de Oliveira. São Paulo: Teológica,  2003. p. 215.

 

LASOR, W. S.et. al. Introdução ao Antigo Testamento, p. 689-690.

 

DANIEL-ROPS, Henri. A vida diária nos tempos de Jesus. Trad. Neyd Siqueira. 2.ed. São Paulo: Vida Nova,  1986. p. 121.

 

VAUX, R. De Op. Cit., p. 214-226.

 

LASOR, W. S.et. al. Introdução ao Antigo Testamento, p. 689-690.

 

VAUX, R. De. Instituições de Israel no Antigo Testamento, p. 214.

 

DANIEL-ROPS, H. A vida diária nos tempos de Jesus, p. 121.