Por. Dra. Gleyds Silva Domingues.

Um dos entraves do processo comunicativo é a interferência na recepção da mensagem, mais comumente denominado de ruído. A interferência na recepção da mensagem pode distorcer o seu sentido, obstaculizando a sua compreensão. A ausência de compreensão provoca o distanciamento e até mesmo as falsas interpretações, o que pode conduzir no estabelecimento de efeitos colaterais com relação ao conteúdo da mensagem enviada.

A mensagem é portadora de um código a ser significado, isso porque ela se torna um instrumento de linguagem, contendo uma finalidade e intencionalidade a serem atingidas. Afinal, compreende-se que não se pode receber uma mensagem de maneira ingênua ou neutra. Antes, ela tem o que dizer e evidenciar, desde o momento de sua criação. Dito isso, é quase que impossível desvincular a mensagem de um propósito objetivado pelo enunciador.

O ato de comunicação, portanto, visa assegurar que o propósito objetivado pela mensagem seja materializado no seu destino. Por isso, que uma mensagem só pode tornar-se eficiente, quando ocorre a significação. A significação torna-se o ponto chave do processo comunicativo. Dito isso, a proposta do ensaio é analisar pedagogicamente a presença de ações formativas que são apresentadas no texto bíblico de 2 Timóteo 3.16, as quais visam o contexto de comunicação do evangelho.

Para tal análise, questiona-se: como as ações formativas influenciam o contexto de comunicação do evangelho, na medida em que apontam para sua finalidade? A problemática é observada a partir dos estudos efetivados no campo da prática da linguagem e da formação educacional; e que têm como proposta a aprendizagem contínua daqueles que fazem parte da relação educativa. Por isso, que a perspectiva assumida parte do entendimento das ações, para que se possa perceber a sua influência direta na significação da mensagem. Afinal, não se pode dizer que houve aprendizagem, se o ensino não produziu sentido, ou seja, significado na vida dos aprendentes.

Neste sentido, busca-se a partir da pesquisa bibliográfica e descritiva explicitar sobre a finalidade e influência exercidas no ato da comunicação do evangelho, visto que, esse ato não é simples e requer que o comunicador esteja atento para possíveis ruídos que dificultem a interpretação da mensagem. Assim, Gil afirma que a pesquisa bibliográfica é “uma pesquisa que é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”, o que possibilita fazer a seleção de fontes que possam contribuir na construção dos argumentos. Ela será, também, descritiva,  porque tem por objetivo descrever as características de uma população, de um fenômeno ou de uma experiência. Assim, ela “delineia o que é – aborda também quatro aspectos: descrição, registro, análise e interpretação de fenômenos atuais, objetivando o seu funcionamento no presente”.  E, que nesse ensaio será direcionado à prática comunicativa e às ações formativas a partir de um versículo selecionado das Escrituras.

Reitera-se que esta é uma proposta de investigação que não se esgota em si mesmo e que demanda novas interlocuções sobre o contexto de comunicação do evangelho, em prol da aplicabilidade do ensino formativo veiculado na mensagem, o que se espera apresentar a partir dos argumentos a serem, aqui, desenvolvidos.

 

1. O contexto comunicativo e a proposta formativa

 

O contexto comunicativo direcionado à proposta formativa configura-se de extrema relevância para o trabalho educativo a ser efetivado, principalmente, porque um dos meios mais utilizados no processo ensino e aprendizagem é a exposição oral e escrita, considerados como elementos basilares da linguagem. Tanto é assim, que a exposição se apresenta como um meio de transmissão de um conteúdo a ser veiculado. Esse conteúdo é portador de um código, o qual precisa ser significado para que ocorra a apropriação pelo aprendente.

O ato de apropriação do código possibilita a interação no grupo social, visto que, a partir dos significados atribuídos, os sentidos sobre os fatos e os fenômenos são gerados. Isso demonstra que há uma estreita relação entre palavras e ideias na produção do ato comunicativo. Sobre isso, Marcondes ressalta o papel da comunicação como fruto da relação entre o que se pensa e o que se sistematiza, por intermédio da expressão verbal, sendo ela uma maneira pela qual o interlocutor pode compreender as ideias compartilhadas. Assim, ele tece a seguinte afirmação: “A linguagem é sempre utilizada para fazermos algo e, em sentido mais amplo, nos comunicarmos com outros indivíduos que também a compreendem e utilizam”, o que sinaliza para a presença dos fatores lógicos e aplicacionais da prática comunicativa.

Os fatores lógicos envolvem os processos de coesão e coerência da estrutura linguística produzida, visto que a ausência desses processos provoca o esvaziamento da mensagem, uma vez que não se estabelece a relação entre as ideias apresentadas e o sentido produzido. A lógica, portanto, é um fator imprescindível na produção do sentido, visto que é por ele que se pode apropriar-se ou não da mensagem veiculada.

Já os fatores aplicacionais remetem para a presença da utilidade da mensagem, ou seja, sua materialização na realidade social. Afinal, no interior de uma mensagem existem ações a serem observadas pelo interlocutor, ou seja, uma finalidade e utilidade a serem atingidas. O que remete pensar que a mensagem veicula uma intenção e de modo algum tem natureza neutra. Isso ocorre, porque a prática comunicativa acontece no espaço das interações sociais, as quais fazem uso efetivo da linguagem.

Pensa-se que o trabalho educativo é mediado pela prática comunicativa, uma vez que nela estão representados os códigos a serem compreendidos, assimilados e apropriados, por isso que compete aos grupos sociais a sua disseminação, a qual transcende uma geração. Afinal, é a partir da transmissão e da significação que os códigos atravessam tempos e espaços culturais.

É por conta do valor contido na transmissão de códigos, que Lidório, ao abordar sobre o processo de comunicação, assevera que ele envolve não apenas o ato da decifração, mas da sua interpretação e utilização. Afinal, os códigos encontram referências no próprio contexto cultural e por isso se tornam facilitadores no ato de compreensão e uso da mensagem veiculada. Por conta disso, ele, ainda afirma:

“A comunicação pode ser definida como o processo em que uma informação (formal ou informal) é transmitida, decodificada, interpretada e associada ao universo de quem recebe. Isso independe, é claro, de sua aceitação ou rejeição” (LIDÓRIO, 2014, p. 27).

A partir da afirmação de Lidório é possível dizer que existe um código definido, interpretado e legitimado pelo grupo social e por conta desse fator, ele é recepcionado quer se aceite, valide ou não como certo ou errado. Isso quer dizer que o ser humano se apropria de códigos que contêm uma carga de significação, o que possibilita que num mesmo grupo social se compreenda a mensagem, a partir dos sentidos contidos sobre o que está sendo enunciado.

Assevera-se, então, que os sentidos contidos na mensagem possibilitam a convivência do grupo social, a partir da prática comunicativa e que se transmite de geração a geração, principalmente, porque os códigos referenciam fatos que se manifestam na realidade de vida. Assim, ocorre com relação ao sentido atribuído pelos grupos sobre nascer, viver, crer, desenvolver, fazer, morrer.

Os códigos significam na vida e por isso são utilizados por homens e mulheres, na maneira como se relacionam, convivem, experimentam, transmitem, produzem e estabelecem as leituras e interpretações de fatos e fenômenos da realidade. Dito isso, concorda-se em dizer que:

“O significado só pode ser construído e transmitido, comunicado, de acordo com determinadas convenções sociais, e, por consequência, como parte de uma cultura. E são os membros dessa cultura que são capazes de interpretá-los, compreendê- los, utilizá-los. Podemos nos comunicar, ou seja, constituir significado sem palavras, ou sem escrita, ou sem linguagem alfabética. Porém, não podemos fazê-lo fora de uma cultura” (MARCONDES, 2017, p. 20).

Dessa constatação surge o fator cultura, como ponto básico da prática comunicativa no ato de produção de significados. E isso é relevante, porque não se pensa na existência da linguagem distanciada dos grupos sociais, antes, são eles o objeto de estudo associado à construção, apropriação e produção de sentidos. É claro que esses sentidos retornam ao grupo social, quer sejam alterados ou assumidos e legitimados na mesma medida em que são transmitidos de geração a geração, sendo  possível observar sua inserção em alguns fatos presentes nas seguintes práticas sociais: cerimônias, ritos de passagem, tradições, costumes, normas e regras de convivência.

Assim, é possível refletir sobre as práticas inseridas na vida, assumindo que: “Se na vida cotidiana o homem aprende reinterpretado os significados da cultura, mediante contínuos e complexos processos de significação de negociação a partir da prática”, isso de fato, impactará a prática comunicativa a ser efetivada no contexto da aprendizagem, porque “toda aprendizagem relevante é no fundo um processo de diálogo com a realidade social e natural ou com a realidade imaginada”.

A prática comunicativa ao falar da vida, estabelece uma conexão real e efetiva com a realidade habitada pelo grupo social, a qual vem marcada por representações e linguagens, que ao serem constituídas expressam um sentido a ser aplicado nas situações cotidianas. Essas representações e linguagens são constituídas e mediadas pelos códigos que irão dar subsídios às relações a serem estabelecidas, por intermédio dos dizeres, fazeres e saberes expressos pelos grupos sociais.

Dito isso, observa-se que a prática comunicativa não se limita ao indivíduo, isoladamente, antes alcança o grupo social, na medida em que lhe atribui uma identidade, o que se torna um elemento diferenciador de outros grupos, devido à sua maneira de expressar, sistematizar, comunicar, experimentar e compartilhar conhecimentos. E essa maneira é assegurada pelo espaço em que está situado o processo da formação humana.

O espaço da formação humana pode ser oriundo de contextos formais e informais, embora se reconheça que a sociedade vem atribuindo maior valor aos contextos formais, visto que, neles, há um objetivo projetado para ser atingido pelo ser humano em sua trajetória formativa, por meio de competências a serem desenvolvidas, porém, é preciso alertar que é no espaço informal da família que há o primeiro contato do aprendente com a prática comunicativa. Sobre o espaço formativo da família, Cope ressalta que:

“[…] a criança vai incorporar os valores e as crenças que são demonstrados em sua casa, sejam eles intencionalmente ensinados pelos pais ou não. A criança irá acreditar na realidade que os pais transmitem e irá copiá-los” (COPE, 2007, p. 134).

Reitera-se, aqui, que os contextos formais e informais são considerados espaços propícios para a construção de significados, porque neles a prática comunicativa ganha expressividade, uma vez que assegura o processo da formação humana, por ter ela um viés relacional. Isso indica que não se deve se desfazer de um espaço em detrimento do outro, mas integrá-los em prol da formação humana.

A partir da importância atribuída à prática comunicativa efetivada, já é possível abordar sobre o objeto eleito, isto é, o versículo bíblico contido em 2 Timóteo 3.16, que apresenta a seguinte mensagem: “Toda Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça”. Essa mensagem em outras versões, como Bíblia de Jerusalém, Nova Versão Internacional, Linguagem de Hoje, Ferreira de Almeida tem algumas alterações com relação aos vocábulos usados, mas que não alteram o seu sentido. Saltam aos olhos duas afirmações de natureza categórica presentes no campo discursivo da língua portuguesa, a saber: o verbo ser e a preposição para.

O verbo “ser” presente na mensagem remete à sua natureza e aplicabilidade, visto que informa que toda Escritura é inspirada e proveitosa, o que expressa sua característica, que assegura sua unidade na qualidade de ser escritura e a diferencia de outra forma escriturística ou textual. Já a preposição “para” demarca a finalidade da Escritura, ou seja, seu propósito e razão de ser.

Ainda, sobre a especificidade da Escritura, Wiersbe comenta que “a revelação é a comunicação da verdade ao ser humano por Deus; a inspiração é relacionada ao registro dessa comunicação de maneira confiável”.O que evidencia a necessidade de realizar a sistematização da mensagem e não apenas a exposição oral, uma vez que evita que o conteúdo original se perca e se modifique no tempo e no espaço históricos.

Assim, se tem desenhada a razão de ser e a finalidade da Escritura, as quais se apresentam nas seguintes ações: ensinar, redarguir (exortar), corrigir, instruir (educar) para justiça, “para  que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2 Tm 3.17), o que pressupõe a completude do processo formativo a ser gerado no ato de comunicaçãodo evangelho. Afinal, ela aponta tanto para sua natureza e aplicabilidade, como apresenta a expectativa a ser produzida, como resultado de sua observância.

 

2. As ações formativas e sua finalidade

 

As ações formativas presentes no texto de 2 Timóteo 3.16 revelam a presença de uma intencionalidade demarcada, no que dizem respeito à natureza e à aplicabilidade da Escritura, visto que os próprios verbos são sinalizadores de um objetivo específico, que orienta a razão de ser de a Escritura fazer o que ela diz ser.

Interessante que o versículo, em análise, contém uma mensagem direta que direciona tanto para o efeito que a Escriturasurte na vida do aprendente, como do processo comunicativo que se materializa nas ações formativas do ensino, da exortação, da correção e da educação para a justiça. Isso revela que a prática a ser exercida é abrangente, visto que engloba as dimensões da vida. É nesse sentido, que se pode dizer que a finalidade do ensino cristão é integral, uma vez que é dirigido para o aprendente em todas as esferas da vida.

Ao pensar na formação integral é preciso considerar a definição a ser atribuída à educação, visto que é no ato educativo que a formação ganha contornos sobre o sentido da vida e do conhecimento a ser produzido e compartilhado. É por esse motivo, que Richards define a educação, enquanto ação ou processo, o que implica em pensar que ela se materializa na dinâmica e na continuidade da vida. Então, é possível inferir19 que a educação não ocorre em um momento, mas que ela se faz presente na trajetória de vida do ser humano, por isso que se diz que seu nascedouro ocorre no contexto da família. Nesse sentido, “a educação socialmente relevante é aquela que promove o desenvolvimento do ser humano, do nascimento à vida adulta”.

Ainda para Richards, a educação é responsável por “desenvolver a capacidade de argumentação e discernimento e, em termos gerais, de preparar-se a si mesmo, ou a outros, intelectualmente para a vida madura”. O que indica que há uma preocupação da educação com o pensar humano. A partir da educação, o ser humano aprimora a sua capacidade de refletir sobre a realidade. E quando ele reflete, ele o faz com todo o seu ser, dispendendo energia física, volitiva, espiritual e emocional nesse exercício.

Se assim o é no contexto da Educação, isso se torna mais contundente, quando se fala de educação cristã, uma vez que o trabalho educativo a ser efetivado tem como proposta o ensino da verdade revelada. A partir dessa intenção é que a ação educativa se torna “o processo pelo qual a experiência, isto é, a própria vida da pessoa se transforma, desenvolve, enriquece e aperfeiçoa mediante sua relação com Deus em Jesus Cristo”

A educação cristã é um instrumento a ser utilizado na comunicação do evangelho, por isso que é preciso ter comprometimento com a verdade revelada, buscando significar os seus princípios na vida dos aprendentes. O ato de significar torna-se o objetivo maior do processo ensino e aprendizagem, uma vez que a partir dele é que o aprendente encontra sentido no próprio ato de conhecer e praticar o que se tornou conhecido.

Dito isso, é preciso fazer um destaque sobre as quatro ações presentes no versículo eleito, visto que estão diretamente associadas à atitude do aprendente com relação a sua aprendizagem, pois em sua capacidade de reflexão, ele tem a possibilidade de fazer a escolha certa, no que diz respeito a sua caminhada cristã. Nesse sentido, cabe agora compreender a amplitude das quatro ações no processo formativo do aprendente, as quais são explicitadas por Kelly, a partir dos seguintes comentários:

“Para o ensino, isto é, como fonte positiva de doutrina cristã […]; para repreensão, isto é, para refutar o erro e para repreender o pecado; para a correção, isto é, para convencer os mal-orientados dos seus erros e coloca-los no caminho certo outra vez; e para a educação na justiça, isto é, para a educação construtiva na vida cristã” (KELLY, 2014, p. 187).

Observa-se, mais uma vez, que as finalidades associadas as quatro ações apontam para a aplicabilidade da Escritura, no sentido de trazer crescimento, amadurecimento e aprendizagem no contexto da vida cristã. Afinal, “é a Palavra de Deus que prepara o povo de Deus para a realizar a obra de Deus”. Isso aponta, não apenas para a responsabilidade do aprendente, mas para o seu comprometimento com essa missão.

Venâncio assevera que missão “é primordialmente oferecer-se a Deus, todos os dias, para ser santificado. Também é guiar espiritualmente a família e os mais próximos, em seu trabalho lento, cotidiano e interior”. O que remete inferir que a missão envolve compromisso, além de processo. Nessa direção, concorda-se com Wiersbe, ao afirmar que “quanto melhor conhecemos a Palavra de Deus, mais capazes seremos de viver e de trabalhar para Deus”.

A presença da missão evidencia o objetivo de desenvolver com seriedade a prática comunicativa, visto que existe um conteúdo que precisa ser significado na vida. Afinal, o ato de comunicar pressupõe a necessidade de estabelecer conexões entre o que se fala e o que se recebe, embora, seja preciso pontuar que essa conexão não ocorre de maneira unilateral, visto que tanto o que emite como o que recebe atuam como comunicadores da mensagem a ser apropriada.

Comunicar uma mensagem é, portanto, um ato de criação e produção de pontos comuns. “E quanto maior for o número de pontos comuns, maior também será a probabilidade de uma boa comunicação”. A partir dessa afirmação é possível dizer que na prática comunicativa ocorre um processo de identificação.

A identificação no âmbito da prática comunicativa ocorre em três dimensões, a saber: cognitiva; afetiva e física. Essas dimensões encontram correlação com as ações apresentadas no versículo bíblico eleito, visto que são referências para o ser humano daquilo que ele pensa, faz, conhece, acredita e sente. Afinal, como ressalta Hendricks:

“Se afirmo que estou comprometido com a verdade eterna revelada na Palavra de Deus, isso deve refletir-se em meu sistema de valores, nas coisas que valorizo, naquilo em que emprego meu tempo e dinheiro, naquilo que me entusiasma”. (HENDRICKS, 2001, p. 77)

Interessante, que a ação do ser humano implica na sua maneira de ver a realidade, a partir de um sistema de valores eleito e que pode espelhar os princípios contidos na verdade revelada, porém, não se deve esquecer que a sua ação reflete diretamente em seu entorno, atingindo o seu grupo social, visto que não se vive isoladamente, mas em interação. Afinal, o relacionamento é o fundamento básico para todo o processo ensino e aprendizagem. O ser humano é por essência relacional”.

A partir da interação é que homens e mulheres significam os fatos e fenômenos sociais. É por ela, também, que eles compartilham a visão de mundo e, ainda, sobre os modos de lidar com a realidade. Isso acontece porque é no ato de produção e construção do conhecimento que o sentido é gerado, visto que ocorre “num contexto de necessidade real, e, em circunstâncias concretas, convoca o indivíduo a agir, a empregar sua memória, a experimentar, a arriscar, a improvisar”, ou seja, a buscar sentido em suas práticas.

Mais uma vez é acentuada a questão da significação, que vem acompanhada de uma lente de interpretação, a qual será impactada pela verdade eterna. Isso ocorre porque o ato de “significar é sempre significar algo a respeito do mundo, para alguém ou com alguém”, o que denota a presença do fator relacional presente nas interações entre os seres humanos.

Quando se evidencia as quatro ações presentes no versículo eleito, observa-se que elas demandam a presença de pelo menos dois sujeitos em relação: o ensinante e o aprendente. Isso porque, o ato de ensinar, exortar, corrigir e educar para a justiça não ocorrem de maneira solitária, mas solidária. Elas indicam a necessidade de um outro na relação, que atuará no processo da formação daquele que está aprendendo.

Surge na prática interativa relacionada à vida cristã, o processo educativo a ser desenvolvido, o qual tem por finalidade a formação integral do ser humano, a fim de que ele não apenas se aproprie de um código, mas compreenda sua importância para uma vida pautada nos princípios da verdade revelada.

É preciso atentar mais uma vez para os quatro verbos, visto que eles estão associados a gerar uma mudança de atitude do aprendente em relação às suas ações. Essa mudança requer que haja um retorno ao que é essencial, o que evidencia que o significado atribuído está na necessidade de reconhecer o seu estado atual e voltar-se para o que de fato precisa ocupar o primeiro lugar em sua caminhada cristã.

É no ato de conhecer a Escritura que o processo ensino e aprendizagem ganha força e significação, visto que no contexto da formação cristã é preciso assegurar a reflexão, o autoexame, a meditação, o desafio e a tomada de decisão. Fatores que estão presentes nas quatro ações do ensino, da correção, da exortação e da educação para justiça.

Wiersbe reconhece que o estudo da Escritura ajuda ao aprendente a crescer e amadurecer na fé, o que implica no desejo de viver em santidade. Esse desejo possibilita o seu preparo para a missão recebida, ao mesmo tempo em que o capacita para viver segundo os propósitos do Eterno, os quais se revelam em sua Palavra.

Quatro ações que impactam a vida do aprendente, por intermédio da comunicação do evangelho. Essa é a proposta da formação integral que traz sentido e significação ao ensino e à aprendizagem a serem desenvolvidos no ato educativo

 

Considerações finais

 

Ao retomar a questão inicial sobre como as ações formativas influenciam o contexto de comunicação do evangelho, na medida em que apontam para sua finalidade, é possível apresentar três razões fundamentais que podem ser inferidas a partir do texto de 2 Timóteo 3.16.

A primeira indica a necessidade de significação do código a ser ensinado, o que requer tanto a apropriação como a compreensão sobre o sentido a ser produzido. A segunda, refere-se ao processo formativo que tem natureza relacional, o que indica a presença de pelo menos dois agentes no ato educativo: ensinante e aprendente. A partir dessa interação, há oportunidade de estabelecer conexões com o conhecimento a ser constituído. Já a terceira, indica a necessidade de pautar a vida cristã na missão confiada, o que favorece o campo de comunicação do evangelho, na medida em que se responde ao chamado e compartilha com comprometimento a mensagem.

A comunicação do evangelho pode ser considerada como um espaço de compartilhamento da mensagem, porém, nesse ato é preciso que não apenas se aproprie da mensagem, mas a vivencie nos relacionamentos. Por isso, as ações de ensinar, exortar, corrigir e educar para justiça remetem à presença de um outro na relação, a fim de que ele possa ajudar o aprendente no processo da caminhada cristã.

A caminhada cristã é um processo, pois o ensinar e aprender são contínuos e demandam investimento de tempo, como dedicação em conhecer a mensagem. A mensagem ao gerar sentido produz mudanças de atitude na vida do aprendente, visto que o constrange diante da verdade explicitada.

A finalidade da mensagem é uma vida pautada na missão e no serviço fundamentado nos princípios contidos na verdade revelada. Para tal, é preciso estar disposto à mudança de mentalidade, o que se manifesta nas quatro ações de ensinar, exortar, corrigir e educar para justiça, visto que elas ajudam no processo de amadurecimento da fé. Nisso se tem aprovação.

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