Resumo

Este artigo examina a relação dos batistas brasileiros com os missionários da mesma denominação vindos dos Estados Unidos. Estes, detentores do saber letrado, saber teológico, poder econômico tiveram mais que adeptos à pregação do evangelho. Da conversão à mensagem pregada, o fiel se apegou à sua pessoa, saber, poder e modo de ser e agir dos norte-americanos. Assim, foram mais que simples seguidores de Jesus, tornaram-se seguidores e defensores do ‘ethos’ do missionário, incluindo suas práticas nas igrejas, importando o modo de adorar implantado por eles, concedendo todo o poder e decisão àqueles que reputaram ser bispos, apóstolos, afinal, tudo na denominação. A dominação branda e assimétrica tornou-se o padrão do missionário passou a ser norma na mente dos líderes brasileiros e prática defensável de forma acrítica em suas igrejas.

Palavras-chave: Igreja batista. Protestantismo. Missionários. Dominação. Missão de Richmond. Convenção Batista Brasileira.

Introdução

Uma das formas como o protestantismo histórico se reconhece no Brasil é na relação de antagonismo com o catolicismo; ser protestante é não fazer o que o católico faz. Outra marca desse protestantismo se dá pela imitação das igrejas norte-americanas que para estas terras transplantaram suas crenças, práticas e pensamentos através dos seus fiéis e dos missionários vindos às centenas. Tais marcas se perpetraram e perduram por mais de um século nas igrejas brasileiras. E, como a religião tende a se tradicionalizar com o tempo, os adeptos passam a acreditar que a fidelidade ao Evangelho equivale a guardar e preservar a lembrança do que fez e ensinou o missionário norte-americano. Neste texto, examino a obra de Antônio Neve de Mesquita: História dos batistas no Brasil de 1907 até 1935. Nessa obra, que descreve os primórdios de sua denominação, o autor justifica, defende, incentiva e ensina todas as ações do missionário. Pretendo mostrar também como essa ideia se fixou no imaginário do fiel brasileiro, especialmente dentro do movimento batista. A força simbólica – além da presencial – do missionário pode ser vista em praticamente tudo o que as igrejas originadas do trabalho missionário: os hinos, a ceia, a forma do governo na igreja, as vestes dos pastores, os bancos, a arquitetura dos edifícios religiosos, o horário das reuniões, a forma de pensar, pregar, ensinar, a teologia e os nomes das organizações.

Referindo-se especificamente aos batistas, objeto de nossa pesquisa, suas doutrinas, práticas e crenças foram forjadas a partir da produção literária para consumo e ensino dos fiéis. Desde a chegada dos primeiros missionários até as primeiras cinco décadas da existência dessa denominação no Brasil, eles foram os detentores do saber letrado, produtores da literatura, responsáveis pela criação de gráficas, impressão de jornais, revistas de Escola Dominical, folhetos, material apologético e evangelístico como se vê a seguir.
• Alonzo Bee Christie: Subsídios para a história dos ba-tistas Fluminenses;
• B. Langston: Noções de ética prática, Teologia bíblica e sistemática, O princípio do individualismo, A doutrina do Espírito Santo;
• R. Crabtree: Arqueologia bíblica, História dos batistas do Brasil, Dicionário Hebraico-Português, Introdução ao estudo do Novo Testamento, O sermão textual, A esperança messiânica, Teologia bíblica do Velho Testamento;
• H. H. Muihead: O cristianismo através dos séculos;
• J. J. Taylor: Harmonia dos Evangelhos (tradução), A arte de pregar (tradução);
• John Mein: A causa batista em Alagoas, A Bíblia e como chegou até nós;
• Rosalee Mills Appleby: Ouro, incenso e mirra, A vida vitoriosa;
• Salomão Ginsburg: Um judeu errante no Brasil;
• William C. Taylor: Gramática grega, Dicionário grego, Manual das Igrejas, Comentário ao Evangelho de João, Comentário à Epistola de Tiago;

• Zacarias Clay Taylor: O retrato de Maria no céu, História dos batistas.

Além da bibliografia acima, várias biografias escritas por nacionais, colegas e parentes ajudaram a sedimentar o imaginário brasileiro acerca dos missionários.