Por Prof. José de Godoi Filho.

Uma rápida leitura do NT mostrar-nos-á, de maneira intrigante, que havia vários tipos de liderança que se justapunham e interagiam nas lides da igreja do primeiro século. Como analisar toda essa diversidade?

Apesar das várias metodologias empregadas na tentativa de elucidação dos múltiplos aspectos relacionados à liderança eclesiástica no NT, o assunto continua desafiando o nosso entendimento. Alguns fatos sobre essa diversidade são óbvios e de fácil percepção. No entanto, existem várias outras questões que nos deixam pasmados e curiosos, senão sem respostas.

O primeiro aspecto dessa diversidade, que nos salta à vista, é a sua própria diversidade. A multiplicidade de liderança no NT é surpreendente.

Algumas dessas lideranças são especificamente mencionadas: apóstolos, profetas, mestres, evangelistas, pastores, presbíteros, bispos e diáconos. Designações mais genéricas também eram usadas para se referir à liderança: “o que preside” (Rm 12.8), “governos” (I Co 12.28), “os que trabalham entre vós, e os que vos presidem no Senhor e vos admoestam” (1 Tess 5.12), “…e que se consagraram ao serviço dos santos” (1 Co 16.15; veja também Hb 13.7, 24). Também aqueles que ajudavam os apóstolos, especialmente o apóstolo Paulo, mencionados por nome nas suas cartas, os quais são chamados de cooperadores (1 Co 3.9; 16.16; 2 Co 8.23; Fp 2.25), compartilhavam, de uma certa forma, da liderança e autoridade deles (1 Co 9.6, 11; 1 Ts 5.12-14; 1 Co 16.10-12).

De sorte que essa diversidade variava desde uma pequena liderança local, informal (como no caso de alguns que se convertiam e se tornavam naturalmente líderes da igreja), que passava a se reunir em sua casa (Rm 16.3-5; 1 Co 16.19; Fm 1 e 2), até lideranças mais abrangentes, como a de alguns apóstolos. Ou poderíamos dizer que variava desde o núcleo dos doze até lideranças periféricas, as quais tornavam-se mais fluidas à medida que caíam fora das categorias mais conhecidas de liderança citadas no NT.

O segundo aspecto que nos intriga é sobre a natureza dessa liderança. Não há dúvidas de que Deus, na sua sabedoria, usou tanto dons quanto ministérios para edificar a sua igreja. Parece-nos que algumas dessas lideranças representavam obviamente um ofício. Outras, apenas uma função, e ainda ambos. No âmbito da Eclesiologia, tem-se discutido muito quais dessas lideranças representavam um ofício ou um mero dom/atividade, ou ainda os dois. Em princípio, pelos dados do NT, sabemos que todo ofício implicava um ou vários dons e que uma atividade ou um dom não representava necessariamente um ofício. É possível também que houvesse líderes, de alguma outra sorte, mas que não ocupassem obrigatoriamente um ofício.

Mas, como distingui-los? Em alguns casos, a resposta parece fácil. Em outros, não. Parte dessa dificuldade prende-se ao fato de que as várias listas do NT misturaram dons e ofícios/ ministérios (Rm 12.6-8; 1 Co 12.28-30; Ef 4.11), dificultando-nos saber se alguns destes representam um ofício, uma função, ou ambos. Pela natureza dos documentos do NT, é provável que estas listas não tivessem conotação técnica, mas apenas ilustrativa.

Os apóstolos, apesar de exercerem várias atividades, certamente, num sentido especial, representavam um ofício. Eles foram especialmente escolhidos por Jesus, e os doze receberam uma designação técnica no NT, em virtude da sua relação singular com o ensino, ministério e ressurreição de Jesus, apesar de não existirem apenas doze apóstolos (At 14.4-14; Rm 16.7; 2 Co 8.23; Fp 2.25; 1 Ts 2.6,7). Estes últimos nos mostram também que o termo “apóstolo” não era empregado apenas no sentido técnico, mas também para designar uma função aplicável inclusive aos doze. No entanto, os apóstolos originais de Jesus representavam, além de várias funções, um ofício, um grupo especial, conhecido pela designação de “os doze” (1 Co 15.5), ou “os apóstolos” (At 9.27; Rm 16.7; 1 Co 15.7; Gl 1.19), tendo uma certa autoridade sobre as igrejas.

Os presbíteros também, apesar de exercerem vários dons ou atividades, representavam um ofício. Não eram apenas anciãos que desfrutavam de um mero título de honra e respeito. Eram líderes atuantes, detentores de vários dons e autoridade, e certamente ocupavam uma posição oficial de liderança na igreja (At 11.30; 15.2,4,6,22; lTm 5.17; Tt 1.5; Tg 5.14; 1 Pe 5.1).

Há uma polêmica se bispos e presbíteros representavam ofícios distintos ou eram nomes diferentes para um mesmo tipo de liderança. Ao que tudo indica, bispo e presbítero eram designações intercambiáveis no NT (At 20.28; Tt 1.5-9), muito embora os termos tenham significados diferentes (Ridderbos, p. 457) e, em períodos mais distantes, ambos os termos representassem dois ofícios diferentes.

Além disso, bispo podia ser tanto uma função quanto um ofício. É possível que a alusão ao termo bispo em At 20.28 seja a de atividade, e não de ofício. Já a menção em Fp 1.1, 1 Tm 3.2; 5.17-19 e Tt 1.5-9, seria de ofício, e não de função, tendo em vista a época em que o termo foi usado, e a forma pela qual ele é tratado.

Quanto aos diáconos (literalmente “servos”, “ministros embora alguns pensem que em Atos 6 tenhamos os primeiros homens a ocuparem o ofício de diácono, parece-nos que este ofício foi criado somente mais tarde (Fp 1.1; 1 Tm 3.8-10), tendo em vista as mesmas razões atribuídas ao modo e o uso do termo bispo, acima mencionado, conquanto saibamos que o termo diácono seja usado em outras partes do NT de maneira diferente, isto é, não tecnicamente (Mt 22.3; Cl 1.7,23,25; 1 Ts 3.2).

Há discussões se pastor representava um ofício ou uma função. É bem provável que pastor não fosse um ofício, até mesmo o mencionado em Ef 4, mas apenas uma função exercida por um outro ofício. A palavra pastor é mencionada apenas uma vez como figurando entre as demais lideranças da igreja (Ef 4.11). Pelo uso escasso do termo no sentido de liderança eclesiástica, e também porque outros ofícios desempenhavam função pastoral, como no caso dos presbíteros (At 20.28; 1 Pe 5.1-5), é mais provável que pastor fosse uma função e não um ofício.

A mesma coisa se sucede aos mestres, evangelistas e profetas. Em virtude do caráter dessas funções, é possível que, a semelhança de pastor, estes representassem apenas atividades exercidas por cristãos na expansão e edificação das igrejas.

Os mestres detinham o dom de passar adiante a tradição apostólica. Há quem diga que pastores-mestres, em Ef 4, se refira a mesma atividade, ou duas atividades de um só ministério não oficial, uma de direção e outra de ensino, ou só ensino, implícito nos dois termos usados, tendo em vista que os dois são regidos por um só artigo.

Os evangelistas tinham a tarefa de evangelizar, como o próprio nome implica. Mas, como veremos mais adiante, sua tarefa não se limitava necessariamente a evangelização.

Os profetas, inspirados diretamente pelo Espírito Santo, recebiam revelações e podiam ajudar a igreja exortando, e até prevendo o futuro (At 11.27-30; 13.1; 15.22,32; 21.9,10-14; 1 Co 14.27-35). No entanto, apesar de esses ministérios não terem um caráter oficial, é certo pensar que pessoas com esses dons se qualificavam como possíveis oficiais da igreja e podiam ser reconhecidos como tais, tendo em vista o fato de se exigir de alguns ofícios da igreja a detenção e comprovação
de alguns dons.

O terceiro aspecto dessa diversidade é a discussão sobre se havia duas formas de lideranças distintas no NT, isto é, uma espiritual (carismática) e outra institucional. Em virtude da menção quase que exclusiva de dons chamados “carismáticos” em 1 Cor 12 e o não aparecimento deles em outras partes do NT, tem levado alguns estudiosos a fazer uma drástica divisão entre dons e ofícios, entre aquilo que chamam de “carismático” e “não carismático”, a ponto de até os colocarem em oposição um ao outro, alegando que, no início, a liderança da igreja era carismática, mas depois se tornou institucional.

Muito embora a tendência da liderança da igreja, à medida que o tempo passava, fosse para a institucionalização, não podemos desvincular totalmente esses dois aspectos da edificação e liderança da igreja. Podemos até tentar entendê-los separadamente, mas não podemos desvinculá-los, e muito menos torná-los contraditórios. A nosso ver, seria inferir além das evidências supor que ofícios e funções (dons) eram dogmaticamente separados no NT.

Dom e ofício podem ser dois lados de uma só realidade. Nas listas de liderança exibidas no NT, ofícios e dons aparecem lado a lado. O fato de certos dons, chamados de “carismáticos” em I Co 12, não aparecerem em outras partes do NT não significa que a igreja evoluiu do carismático para o institucional, ou substituiu aquele por este. Existe um vínculo muito forte entre ofício e dom. É pensamento do NT que todo ofício pressupõe um ou mais dons (At 20.28; 1 Tm 3.1-5; 5.17; Tt 1.5-9).

Tomemos como exemplo os apóstolos novamente. Eles evangelizavam (At 2.14-41), ensinavam (At 2.42; 6.2), curavam (At 2,43; 3.1-10; 5.12), etc. A terminologia diversa usada no livro de Atos sobre a atividade dos apóstolos mostra-nos que eles possuíam muitos dons e eram usados de muitas maneiras por Deus.

Os presbíteros exerciam certos dons. Em Atos 20.28 Paulo atribui a eles uma função pastoral e episcopal, embora não saibamos com certeza se havia diferença entre as duas funções. Sabemos que pastorear é um termo bastante abrangente. A julgar pelo modo metafórico do termo, pastorear sugere uma multiplicidade de funções: alimentar, conduzir, cuidar, proteger etc. Essa multiplicidade talvez receba luz em algumas passagens mais claras a respeito das varias funções desse ofício. Alguns desses presbíteros presidiam, alguns ensinavam, ou faziam ambas as coisas (1 Tm 5.17; veja também Tt 1.5-9). Também fica evidente nestas passagens a função de defender o rebanho.

Os evangelistas, como o próprio nome já diz, tinham o dom de evangelizar – sua atividade principal. Além disso, assim como os apóstolos, podiam ter o dom de curar e fazer prodígios (At 8.4-8). Com base em 2 .Tm 2.2; Tt 1.5 e At 5.12, eles podiam desempenhar outras funções: batizar, organizar e dirigir igrejas etc. Com o tempo essa função de evangelista desapareceu.

Já o ofício de bispo incluía o exercício de pelo menos dois dons. Embora alguns atribuam exclusivamente uma função- administrativa ao ofício de bispo, ele não somente deveria governar, mas também ensinar (1 Tm 3.2 e Tt 1.9).

Em todas as listas de dons, e por todo o livro de Atos, bem como em várias outras epistolas do NT, incluindo as cartas pastorais, vemos os dois aspectos da liderança interligados: dons e ofícios. Portanto, seria um erro tentar desvinculá-los totalmente, colocá-los em oposição um ao outro, ou então dizer que um é evolução do outro.

O quarto aspecto que nos chama a atenção está na maneira livre com que o Espírito Santo usava os vários líderes, outorgando-lhes uma diversidade de dons. Além da íntima relação entre ofício e dom, percebe-se que, além de certos dons como pressupostos básicos para alguns desses ofícios, pessoas podiam ter uma multiplicidade de dons ou funções. Não havia limites e nem categorizações rígidas para a detenção desses dons. Por exemplo, o apóstolo Paulo possuía vários dons. Confessava falar em línguas (1 Co 14.18), dizia-se pregador, mestre e apóstolo (1 Tm 2.7); ele também profetizava e liderava. Através de 1 Tm 5.17, pressupomos que nem todos os presbíteros tinham o dom de ensinar. Isso nos mostra a liberdade com que o Espírito Santo outorgava esses dons de acordo com a sua vontade e necessidade da igreja (1 Co 12.4,7,11). Também se explica porque existe uma diversidade muito grande de dons, mesmo entre aqueles que detêm um mesmo ofício.

O quinto aspecto diz respeito ao relacionamento entre essas várias lideranças. Havia uma ordem eclesiástica no NT? Se havia, qual o caráter e a natureza dessa ordem?

Assim como acontece com alguns dons, os quais são, às vezes, tratados pela sua precedência em tempo e importância (1 Co 14), o NT faz uma diferenciação entre aqueles ofícios que foram mais importantes para o início e desenvolvimento da igreja do primeiro século. É evidente que, mesmo no início da igreja, havia certa ordem adiante nos tempos do NT, e depois dele.

Também presumimos que tenhamos dentro do NT pelo menos duas fases no desenvolvimento em direção a uma ordem eclesiástica mais fixa, semelhante à encontrada nas cartas pastorais. Não são fases distintas. Elas justapõem-se nesse processo. Uma dispõe-se em âmbito geral, na qual figuram os apóstolos, profetas e outras lideranças. A outra, em âmbito local, em que se encontram os líderes com ministérios mais fixos.

No início, e também mais tarde, nos tempos do NT, alguns ofícios e outras lideranças foram Fundamentais na fase de expansão e consolidação da igreja. Certos ofícios são mencionados em ordem de tempo e importância para a vida da igreja, alguns desfrutando de certa autoridade. Dentre eles, os apóstolos, profetas e mestres (1 Co 12.28; Ef 4.11), muito embora não saibamos se a alusão a estes últimos implicava ofícios ou não.

Numa segunda fase, mesmo que os apóstolos e outras lideranças continuassem a ter influência sobre as igrejas, eles mesmos trataram de estabelecer e desenvolver uma liderança local, como presbíteros, por exemplo, (At 14.23; Ef 4.11,12; 2 Tm 2.2; Tt 1.5).

O caráter distinto dessa ordem eclesiástica primaria, comparada com a existente em muitas das igrejas de hoje, fica evidente quando analisamos alguns fatos referentes ao relacionamento entre as várias lideranças do NT. Apesar de os apóstolos serem os primeiros líderes formalmente escolhidos por Jesus para dar continuidade à obra dele, curiosamente eles compartilhavam de certa liderança com os presbíteros da igreja de Jerusalém. A despeito de estarem presentes à sessão em Jerusalém sobre a polêmica da circuncisão ou não dos gentios, foram liderados por Tiago, o irmão de Jesus, que era um presbítero, e não um dos apóstolos. Como explicar essa superposição de liderança na igreja de Jerusalém e o relacionamento entre eles? Isso nos leva a questionar qual era a natureza da autoridade apostólica.

Apesar dessa aparente inversão de papeis, quando consideramos o caso da igreja de Jerusalém, a autoridade dos apóstolos e suas funções eram reconhecidas, não somente por esta igreja, mas pela grande maioria das igrejas do NT. Como nos lembra o evangelista Lucas, a igreja era ensinada na doutrina dos apóstolos (At 2.42). Eles, juntamente com os profetas, formavam o fundamento da igreja de Jesus Cristo (Ef 2.20). Eles figuram em primeiro lugar na lista de ofícios e dons em 1 Co 12.28 e Ef 4.11.

Ao que tudo indica, a autoridade dos apóstolos e de outros líderes que tinham ofícios não era institucional, ou legal, mas sim espiritual e moral. A despeito do seu ofício de apóstolos, eles somavam-se a outras lideranças, e, em alguns casos, eram até liderados por outros. Os apóstolos, conquanto respeitados, juntavam-se a tantos outros na edificação e expansão da obra missionária. Era um trabalho de influência e parceria com outras lideranças.

Paulo também é exemplo dessa parceria. O apóstolo, apesar de ter autoridade sobre seus companheiros de trabalho e igrejas, chamava-os de cooperadores (1 Co 3.8,9).

Embora houvesse lideranças gerais, fora e dentro da igreja, nada é falado no NT sobre a subordinação entre os líderes. Em outras palavras, não há vestígios de uma hierarquia formal, legal, dentro da igreja. Até mesmo dentro das cartas pastorais, onde diáconos, bispos e presbíteros são mencionados, não há ensino sobre subordinação entre eles. Ao que nos parece, eram atividades diferentes, mas que se completavam na assistência a igreja de Deus.

O sexto aspecto refere-se aos diferentes ofícios, entre as várias igrejas e comunidades. É inevitável percebermos que entre elas havia diferença quanto ao número e ao tipo de liderança que possuíam. A julgar pelos dados do NT, a igreja de Jerusalém tinha apóstolos, presbíteros, líderes eleitos que ajudavam a resolver situações sociais na igreja (At 6), e, pelo menos, um evangelista (At 8.4-8, 26-40; 21.9). A Igreja de Antioquia compunha-se de mestres e profetas (At 13.1). Já na Igreja de Filipos, os líderes eram chamados de bispos e diáconos (Fp 1.1). A Igreja de Éfeso possuía presbíteros (At 20.28). A comunidade Petrina, presbíteros (1 Pe 5.1-5). A de Tiago também (Tg 5.14). E assim por diante. No entanto, precisamos ter cautela até onde entendemos essa diversidade de liderança entre as igrejas.

É evidente que isso não quer dizer que as igrejas podiam ter os ofícios que imaginassem. As principais lideranças locais eram formalmente estabelecidas (At 14.23; Tt 1.5; 2 Tm 2.2). Além da liderança local estabelecida, as igrejas eram ajudadas por líderes que atuavam extra-oficialmente.

Também a não menção de um determinado tipo de liderança, numa certa igreja, não é prova da sua inexistência. O NT não nos dá uma lista exaustiva de todos os líderes existentes numa igreja. Pela ausência de maiores dados a respeito da instituição e função dos vários ofícios, é provável que, no início, ordem eclesiástica não estivesse entre as primeiras preocupações do NT.

Como presumimos anteriormente, até mesmo a aparente contradição entre alguns ofícios, tendo em vista os dados do NT, responda por essa diversidade de líderes entre as várias comunidades. É o caso de presbítero e bispo. Ambos os termos são usados para um mesmo ofício (At 20.28; Tt 1.5-9).

Já com respeito ao ofício de apóstolo, em virtude do seu caráter distinto, não poderíamos esperar que em cada igreja o ofício apostólico fizesse parte do grupo fixo de obreiros. O seu ofício não podia ser reproduzido. Talvez o único caso de reprodução do ofício apostólico, além dos doze, seja o do apóstolo Paulo. Mesmo assim, a natureza do ofício apostólico dos doze continuava tendo a sua distinção. Outra razão prende-se ao fato do desenvolvimento da liderança da igreja nos vários períodos que compõem o NT. As cartas pastorais, por exemplo, representam um estágio mais avançado da igreja, evidenciando um desenvolvimento na direção de uma ordem eclesiástica mais estável, do que em épocas anteriores.

O sétimo aspecto da diversidade da liderança do NT que gostaríamos de mencionar refere-se aos seus múltiplos objetivos. Esses objetivos prendiam-se ao caráter singular do início da igreja e suas diferentes necessidades.

A liderança no NT existia, em primeiro lugar, para garantir os primeiros fundamentos da própria igreja de Jesus Cristo. Alguns desses líderes foram singularmente usados para fundar a igreja, e assim tornaram-se o fundamento da mesma, em virtude da estreita ligação com Cristo. É o caso dos apóstolos e profetas (Mt 16.16-19; At 2.42; Ef. 2.20).

Outros líderes, juntamente com os apóstolos e profetas, foram usados na expansão da igreja, como no caso dos evangelistas (At 8.4-8, 26-40; 21.8; Ef 4.11; 2 Tm 4.5), e outros cooperadores, dos quais alguns não somente ajudaram na obra de evangelização, levada à frente pelos apóstolos, mas certamente tornaram-se verdadeiros evangelistas, embora não sejam assim intitulados.

Alguns desses líderes, com os seus diferentes dons, e também outros dons que não representavam necessariamente lideranças ou ofícios, existiam para edificar a igreja (1 Co 14.26; Ef 4.12). Parece que algumas dessas lideranças, com os seus mais variados dons (ensino, exortação e profecia), cuidavam especificamente disso. É o caso de profetas, pastores, mestres e presbíteros. Até mesmo aqueles líderes, cujo ministério era de caráter mais amplo e itinerante, cumpriam essa função por onde passavam, ou à distância.

Dentro desse objetivo de edificação da igreja, encontramos um tipo de dom que podia ser usado para a edificação própria, isto é, daquele que o possuía (1 Co 14.4), caso não houvesse intérprete (1 Co 14.5,6,9,18,19,23,27,28). Estamos nos referindo ao dom de línguas, sobre o qual o próprio apóstolo Paulo faz questão de orientar em relação ao seu uso adequado. Parece-nos que os diáconos e diaconisas, como líderes, cuidavam do bem estar físico e material dos membros da comunidade (At 6.1-7; 1 Tm 3.8-13), exercendo os vários dons de caráter social (1 Co 12.28; Rm 12.7,8).

Alguns líderes obviamente cuidavam da administração da igreja. É o caso de alguns presbíteros, bispos e outros Estes últimos, talvez não oficialmente (At 20.28; Rm 12.8; 1 Co 12.28; 16.15,16; 1 Ts 5.12; Hb. 13.7,24; 1 Pe 5.1-5).

Nota-se que, alguns líderes, talvez além da administração da igreja, tinham a tarefa de produzir liderança para passar adiante a tradição apostólica (Ef 4.11-12; 2 Tm 2.2; Tt 1.5-9).

E por fim, em virtude do perigo de heresias, alguns líderes também foram usados para defender a igreja. É o caso dos apóstolos. Suas cartas estão permeadas de ensinos apologéticos. Os presbíteros e bispos foram encarregados dessa função também (At 20.28-30; Tt 1.9). Alguns companheiros de Paulo receberam essa tarefa (1 Tm 1.3,4). O desafio da igreja dos nossos dias consiste em entender toda essa diversidade e aplicá-la devidamente à sua realidade. O que é, e o que não é normativo para a igreja contemporânea? Quais as implicações para a liderança/ministério dos dias atuais? O que podemos aprender com a igreja primitiva, em termos de liderança?

Gostaria de destacar três implicações para os dias atuais da igreja. Em primeiro lugar, se entendermos as limitações do NT, no que se refere a dados mais claros sobre a liderança, seria de bom alvitre evitarmos ser dogmáticos nos aspectos formais e externos a respeito da liderança da igreja.

Em segundo lugar, embora algumas lideranças tenham desaparecido com o tempo, em virtude de seu caráter singular para os dias do NT, entendemos que a liderança da igreja e seus dons devam ser tão variados quanto suas necessidades. O Espírito Santo tem outorgado todos os dons e ministérios de que a igreja precisa. Vale a pena incentivar e promover essa multiplicidade de dons e ministérios.

Em terceiro lugar, que toda a liderança da igreja, longe de brigar por título ou status, deveria ter o mesmo espírito de equipe e serviço que caracterizaram os primeiros líderes do NT.

Temos certeza de que se tivermos essa visão e prática haverá mais harmonia dentro das nossas igrejas e denominações e, por conseguinte, estaremos mais perto do modelo que caracterizou a liderança do NT.

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