O elo entre Jacó e José

Como mencionado anteriormente, é bem provável que a estrutura na qual fora montada o livro de Gênesis haja uma intrínseca relação entre os patriarcas e José.

Segundo Briend (1985, p. 19-22), seria a bênção de Deus a Abraão em Gn 12.1-3, algo bem presente em todo o ciclo patriarcal. Tanto o ciclo de Abraão, quanto o de Isaque, e o de Jacó e a história de José evidenciam que estes homens fizeram com que a bênção do Senhor cumprisse seu papel chegando, respectivamente, a Ló (pai dos Amonitas e Moabitas), para Abimeleque (um filisteus), para Labão (um arameu) e para Potifar (egípcio).

Além disso, ele diz que a Bênção é mencionada cinco vezes em Gn 12.1-3 em contraste com a Maldição que fora mencionado também cinco vezes no ciclo das origens (Gn 1-11). Desta forma, “o ciclo das origens é o da maldição, e portanto, do pecado” (Briend, 1985, p. 19), enquanto que o ciclo dos pais e mães de Israel seriam de bênção.

Todavia, além da bênção que perpassa a história de todos esses grandes líderes, acredita-se que a grande luz que o redator do Gênesis quis passar é que em José há uma clara exposição do direcionar de Yahweh na história. Ou seja, José chegou onde chegou, sem usar as “habilidades” familiares para tal. Pois, não há momentos onde José procura usar de artimanhas, mas, como ele mesmo declarou: “Deus enviou-me adiante de vós {…} assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas sim Deus, que me colocou como pai [sic. conselheiro] do faraó, como senhor de toda sua casa e governador de toda a terra do Egito” (Gênesis 45. 7,8).

Desta forma acredita-se que alguns pressupostos relacionados, em especial, a Jacó devam ser reformulados. Pois, de coitadinho ele não tinha nada; muito pelo contrário, soube utilizar de subterfúgios negativos para alcançar sua meta.

Aproveitou a fome de seu irmão para propor a compra da primogenitura e depois usou de extrema frieza e habilidade para passar pelo teste de seu pai e tudo em busca da bênção. Esta “paixão” pela primogenitura continua sendo de extremo louvor, mas seus métodos a fim de obtê-la são reprováveis.

Destarte a aprovação de Isaque quanto ao processo todo de hábil artimanha, o hagiógrafo parece condená-lo ao compará-lo com José. Talvez não só a ele, mas a toda trajetória de engano vivenciada pelos pais e mães: Abraão (quando diz ao faraó que Sara é sua irmã), Isaque (quando diz pra Abimeleque que Rebeca é sua irmã) e pelo famigerado Jacó.

Portanto, não resta dúvida: para uma melhor compreensão sobre as narrativas do embusteiro Jacó, há de se levar em consideração a integridade e o desenrolar da história de seu filho, José.

Assim, a Bênção deve continuar sendo almejada e valorizada, mas, acima de tudo, adquirida em bons padrões de moral e ética. Pois afinal, a mesma vem através de Yahweh que continua no controle da história e não buscada por meios escusos.

 

REFERÊNCIAS

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