Por Marlon Reguelin.

O estudo dedicado da teologia – aqui entendida como Palavra de Deus e sua revelação máxima na pessoa bendita de Jesus Cristo – é assunto comum entre todos aqueles que se propõe à pratica teológica e pastoral. E nem poderia ser diferente, afinal o conhecimento aprofundado acerca do Senhor, para além daquele revelado na natureza (Sl 19.1-6; Rm 1.18-20), só pode ser encontrado nos 66 livros canônicos da Sagrada Escritura, já que esta foi a forma pela qual Deus, em sua sabedoria e soberania, decidiu registrar aquilo de mais importante para a fé e prática de seu povo.

O empenho dos teólogos em se debruçar sobre as Sagradas Letras tem sido, juntamente com o amparo gracioso do Espírito Santo, o sustentáculo intelectual do ministério cristão. Ao longo dos dois últimos milênios, homens e mulheres têm laborado e se dedicado a conhecer e compartilhar os preceitos e ensinamentos bíblicos tanto nas ocasiões de necessidade e defesa da fé quanto naquelas onde a tônica é comunhão, a pregação da Palavra ou mesmo o discipulado e instrução a novos convertidos, a começar por Jesus que, quando tentado pelo diabo, humildemente faz uso da teologia bíblica para responder os ataques do inimigo (Mt 4.1-11), assim como esteve constantemente instruindo seus discípulos quanto à melhor interpretação da Lei do Senhor (Mt 5.17-20).

Se Jesus, que sendo o próprio Deus e, portanto, conhecedor de todas as coisas, dedicou se ao estudo e ensino da Palavra, quanto mais seus discípulos necessitaram (e continuamos necessitando) imitar sua atitude. São fartos os exemplos no Novo Testamento onde os seguidores de Jesus se empenharam em ensinar as verdades e boas-novas bíblicas.

Filipe, no capitulo 8 de Atos dos Apóstolos, não hesita por um segundo sequer diante da oportunidade de apresentar o Evangelho da salvação (At 8.35) a um eunuco que ele nem mesmo conhecia. Essa, aliás, era a tônica da igreja primitiva: todos os dias, publicamente e de casa em casa, ensinavam e pregavam Jesus (At 5.42; 20.20; 28.30-31), de modo que a igreja perseverava não apenas na boa doutrina, mas também na comunhão (At 2.42).

Paulo, certamente o maior teólogo do cristianismo, foi mais um exemplo de perseverança no aprendizado e partilha da Palavra. Primeiro, como mestre da Lei, certamente foi muitíssimo bem instruído no conteúdo daquilo que hoje se conhece por Antigo Testamento. Posteriormente, após ser alcançado pela graça em um encontro verdadeiro e pessoal com o Senhor Jesus, dispõe de todo seu conhecimento e capacidade a serviço das igrejas e da expansão do Evangelho mundo afora.

Aos Filipenses, Paulo reforça a necessidade de praticar aquilo que ele lhes havia ensinado (Fp 4.9). Aos Colossenses pede que estes instruam-se e aconselhem-se mutuamente (Cl 3.16). Aos Tessalonicenses, que o consolo e edificação sejam via de mão dupla entre os irmãos (1Ts 5.11). Também a Timóteo e Tito, seus filhos na fé, Paulo enfatiza a necessidade de ensino e pregação da verdade bíblica (2Tm 42; Tt 2.1) Os exemplos dentro da própria Escritura são inúmeros.

Porém, a história comprova que essa pratica não ficou restrita aos discípulos e igrejas do primeiro século. A tradição bimilenar cristã foi, em grande medida, construída sobre os pilares da teologia bíblica e conhecimento/ensino compartilhado entre os cristãos de todas as eras.

Nos séculos seguintes à morte de Cristo, período conhecido como Patrística, inúmeros homens piedosos se propuseram a compartilhar a mensagem da cruz ao povo de sua época, ainda que isto significasse risco iminente de morte pelas mãos dos poderosos e inimigos da fé.

Muitas das doutrinas que hoje estão estabelecidas na teologia cristã foram desenvolvidas e sistematizadas a partir das reflexões e discussões dos chamados Pais da Igreja.

Se hoje não se discute a divindade de Cristo ou a Triunidade de Deus, isto não aconteceu sem o empenho e rigor teológico de homens como Atanásio de Alexandria, Hilário de Poitiers e Agostinho de Hipona. Concílios foram convocados, Credos e Confissões foram escritos e documentos foram elaborados no intento de, primeiramente, defender a fé cristã dos ataques promovidos por seus opositores, mas também legar as conclusões teológicas oriundas daquele período tão acalorado e pujante.

Em seguida, com o advento do período histórico que ficou conhecido como idade média, ocasião em que as discussões acerca da teologia cristã (pelo menos em seus aspectos práticos) ficaram basicamente centradas e restritas a Roma, muito da efervescência experimentada no período patrístico arrefeceu. Isto não significa, porém, que não houve ali avanços no conhecimento da doutrina bíblica. Pelo contrário, muitos estudiosos produziram comentários e obras magníficas ao longo da idade média, sendo Tomás de Aquino o mais notável deles. Aquino, filósofo, professor e sacerdote, organizou um dos documentos mais robustos de toda a história do cristianismo, a Suma Teológica, um compêndio dividido em três partes e composto por mais de dois mil capítulos onde o autor discorre sobre questões teológicas, filosóficas, espirituais, morais, dentre vários outros tópicos. Ainda hoje, mais de 700 anos após a composição da Suma, teólogos e filósofos continuam a se debruçar sobre seu conteúdo para refletir a respeito de questões ali consideradas

Foi também durante a Idade Média que a cosmovisão oriunda da teologia cristã mais impactou o ensino regular. Se hoje as crianças não são comumente apresentadas aos ensinamentos bíblicos/cristãos, naquele período a instrução de crianças e jovens era toda baseada na pedagogia do Trivium e Quadrivium, comumente chamados de Artes Liberais. Muitos dos grandes nomes da cristandade foram educados a partir das premissas contidas nesse modelo de ensino desenvolvido pelos teólogos daquele período.

Há ainda o período histórico que compreende o surgimento e difusão da Reforma Protestante, outro movimento que só foi possível a partir do conhecimento e rigor teológico de vários personagens centrais (Lutero, Calvino, Zuínglio etc).

Mais do que apenas hermenêuticos ou exegéticos, os impactos da Reforma promoveram algo que nenhum outro movimento anterior foi capaz: tornar a teologia acessível ao grande público.

Antes restrita basicamente ao clero, graças a Reforma Protestante (e também à providência divina que possibilitou o surgimento da Imprensa de Gutenberg poucos anos antes) o cidadão comum passou a ter acesso à Escritura em sua língua materna, e não apenas em Latim ou Grego como era praxe. Com isto, vários homens puderam empreender o estudo bíblico que antes lhes seria impossível.

Desse momento histórico em diante o estudo da teologia se propagou como luz diante da escuridão. Nunca houve tanta profusão de conhecimento bíblico e teológico como de lá para cá.

Após o surgimento e a popularização da tecnologia, o boom foi ainda maior.

Hoje, basicamente qualquer pessoa comum dispõe de recursos e ferramentas de pesquisa na palma de sua mão através de um Smartphone.

Várias e várias versões da Bíblia, comentários, bibliotecas digitais, ebooks, cursos e vídeos que podem potencializar seu aprendizado. Jesus prometeu que seriamos suas testemunhas até os confins da terra (At 1.8). Também nos ordenou que, o sendo, façamos novos discípulos, batizemos e os ensinemos a guardar todas as coisas que Ele ordenou (Mt 28.19-20).

Você há de convir, caro leitor, que Jesus ensinou muitas, muitas coisas. Para que também possamos ensiná-las, precisamos primeiramente estar dispostos a apreender, refletir e praticar a magnífica teologia cristã.

É isto que os discípulos de nosso Senhor tem feito ao longo dos últimos dois milênios, é isto que deve ser feito por nós, discípulos do presente, e por todos aqueles que forem treinados/discipulados para nos suceder… Até que Ele venha!